O ocaso das comemorações do 20 de setembro na Itália
Em 20 de setembro de 1870 ocorreu a tomada de Roma, evento que assinalou na Itália um dos últimos episódios do “Risorgimento” e a data passou a ser celebrada como feriado nacional.
Em Santos, o primeiro registro que temos das celebrações do XX de Setembro pela colônia italiana data de 1890, numa publicação do jornal Diário de Santos. Nesta nota, a sociedade representativa dos italianos em Santos convocava seus associados para a organização das celebrações.
Anos depois, uma publicação de 1907 no jornal A Tribuna trazia um relato dos fatos históricos relacionados à celebração e, ao final, uma nota da Società Italiana di Beneficenza afirmando que “como nos anos anteriores, (a SIB) promove uma grande festa em homenagem a esta data”, com extensa programação, incluindo salva de 21 tiros à alvorada, reunião e festa com os alunos da escola mantida pela SIB, sessão solene e grandioso baile. Mas do que se trata essa festividade e porque num dado momento, ela deixou de ser comemorada tanto na Itália como pelos italianos em Santos?
Para entendermos o contexto, vamos retornar a 1860, quando o Conde de Cavour, Camilo Benso então presidente do “Consiglio dei ministri del Regno di Sardegna, declarou “la nostra stella, o Signori, ve lo dichiaro apertamente, è di fare che la città eterna, sulla quale 25 secoli hanno accumulato ogni genere di gloria, diventi la splendida capitale del Regno italico”, deixando explícita a intenção de tomar Roma e fazer dela a capital do Reino unificado. De fato, em 1860, grande parte do território italiano já havia sido anexado graças às guerras de independência e por meio de plebiscitos, mas o Estado Pontifício, que por cerca de 1000 anos controlou a Itália Central, persistia – ainda que progressivamente tenha perdido seus territórios.
Um empecilho às aspirações de Cavour para a tomada de Roma era a presença de guarnições militares francesas no território, apoiadores do Estado Pontifício e que ali estavam para oferecer resistência e proteção ao papa. O Conde Cavour buscou meios diplomáticos junto ao imperador francês, Napoleão III, para a retirada das guarnições e quase obteve sucesso, porém a sua morte em 1861 fez retroceder todas as negociações até 1863.
Em 15 de setembro de 1864 houve a assinatura de um importante documento diplomático, conhecido como Convenzione di Settembre, celebrado entre o Reino da Itália e o Segundo Império de Napoleão III. Esse tratado previa a retirada das tropas franceses do território pontifício e em troca, os italianos se comprometeriam em não o invadir e também a mudar a sede do reino de Torino para Firenze, como sinal de renúncia definitiva a Roma como capital. Como podem ver, o tratado não só não resolveu a questão como também reforçou o impasse.
Em 1867 a situação se complicou de vez, quando voluntários de Giuseppe Garibaldi invadiram o Lazio e, em represália, os franceses desembarcaram em Civitavecchia, unindo-se novamente às forças papais e criando um novo impasse que desacelerou as medidas diplomáticas.
Em agosto de 1870, com o pretexto diplomático de salvaguardar as fronteiras do Reino d’Italia com os territórios pontifícios, expedições militares italianas se posicionaram na Itália Central. Em 8 de setembro, o rei Vittorio Emanuele II enviou uma carta ao papa Pio IX declarando sua intenção de entrar no Estado Pontifício, o que efetivamente ocorreu no dia 20 de setembro.
Nesse célebre dia de 1870, o exército italiano, liderado pelo general Raffaele Cadorna, abriu uma brecha de 30 metros de largura nas muralhas de Roma, próximo à “Porta Pia”. Um batalhão de infantaria e outro de Bersaglieri entraram na cidade. Poucas horas depois, o Estado Pontifício declarou sua rendição, com bandeiras brancas sendo agitadas na cúpula “di San Pietro” e nas muralhas do “Castel Sant’Angelo”.
Com a rendição do Estado Pontifício, a capital do Reino d’Italia passa a ser, finalmente, Roma, fato oficializado por meio de uma lei promulgada em 3 de fevereiro de 1871. Ao tornar Roma a capital italiana, colocou-se fim no poder temporal dos papas. O papa Pio IX viu-se confinado aos muros leoninos e declarou-se prisioneiro no Vaticano. A Questão Romana, nome dado a esse impasse diplomático, persistiu por 59 anos e só foi resolvido em 1929, com a assinatura dos “Patti Lateranensi”, um tratado internacional onde a Igreja reconhecia oficialmente o estado Italiano e também Roma como sua capital, em troca da soberania do Estado Vaticano.
Foi também por conta dos “Patti Lateramensi” que a data festiva de 20 de setembro deixou de ser comemorada. A tomada de Roma se tornou um evento constrangedor ao papado – uma verdadeira derrota, ainda que o pacto tenha concedido muitos privilégios e recompensado financeiramente o Vaticano. Como Mussolini não queria se indispor por a Igreja, o feriado foi suprimido.
Anos mais tarde, com referendo de 02 de junho de 1946, nasce a república italiana, fruto de uma guerra civil muito dolorosa, com italianos lutando, matando e morrendo pelas mãos de outros italianos, um período visto por muitos como consequência direta do fracasso político e cultural do Reino da Itália. Não havia motivo de orgulho para os quase vinte anos que antecederam a república e nesse clima de profunda mudança e renovação, buscou-se a construção de uma nova tradição popular e do sentimento de unidade nacional.
A nova Itália que nascia após a guerra decidiu deixar no passado eventos traumáticos e de ressentimentos ligados aos conflitos, ao fascismo e aos seus horrores. Após o referendo de 02 de junho de 1946, o 20 de setembro deu lugar ao 25 de abril, dia da ‘tomada de Roma”, que simboliza a libertação italiana da ocupação estrangeira e da reunificação do país sob um único símbolo, a república.
Assim como aconteceu com o 20 de setembro, o 17 de março, que desde 1861 era uma celebração de recorrência anual pelo “Anniversario dell’Unità d’Italia” – a proclamação do Reino d’Italia – deu lugar ao 2 de junho, dia do referendo e quando definitivamente a monarquia foi abolida e substituída pela república.
Importante ressaltar que não se trata de esquecer ou apagar o passado, mas chega uma hora em que o passado deve ser relembrado como um momento histórico, como algo vivenciado e aprendido, que de certa maneira participou da construção do presente e pode ser determinante do futuro.
Fontes consultadas:
Perchè non festeggiamo il 20 settembre? – Antonio Coppola. Disponível em http://www.historicaleye.it/perche-non-festeggiamo-il-20-settembre/
Cos’è il 20 settembre, la data delle vie XX settembre. Disponível em http://www.ilpost.it/2018/09/20/20-settembre-xx-settembre-1870/
La questione romana e la stipula dei Patti Lateranensi. Disponível em http://www.fattiperlastoria.it/questione-romana/
A Tribuna de Santos, edição 151, 1907
Diário de Santos, edição 170, 1890
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



