Italianos em Santos
Durante um período marcado por disputas territoriais com nações como França e Áustria, e enfrentando desafios como a baixa produtividade agrícola e a ausência de lideranças políticas estáveis, mais de 1.156.000 pessoas da península itálica decidiram deixar suas terras e estados, emigrando para o Brasil. A migração intensificou-se a partir de 1874, impulsionada por um acordo entre os governos brasileiro e italiano. Esses imigrantes buscavam escapar da miséria, das epidemias e dos conflitos. Ao chegar no Brasil, encontraram um vasto território, na maioria ocupado por escravizados. Na época, a população total do país era de cerca de 4.500.000 pessoas, distribuídas por todo o território nacional.
Em 1929 eram 30.635.605 habitantes em todo o Brasil. O Estado de São Paulo tinha 4.592.189.
O Porto de Santos destacava-se como o principal ponto de desembarque dos imigrantes italianos, que, no entanto, raramente permaneciam na cidade. Logo após desembarcarem, eles eram encaminhados para trens que os transportavam até as fazendas no interior de São Paulo. Essas pessoas, muitas vezes recrutadas em suas regiões de origem, traziam consigo suas famílias, atraídas pela promessa de um futuro mais promissor. Ao serem contratados para trabalhar na agricultura, frequentemente substituindo a mão de obra escrava que estava sendo progressivamente liberta, recebiam diversos subsídios. Esses incluíam o transporte desde suas cidades natais até o Brasil, a travessia do Atlântico a partir dos portos italianos, alimentação, e o translado do porto de Santos até a hospedaria de imigrantes em São Paulo, tudo sem custos para eles.
Com a intensa migração ocorrida nesse período entre a península itálica e o Brasil, especialmente para o estado de São Paulo, uma preocupação emergiu entre aqueles que se estabeleceram em Santos: era essencial promover a integração desses imigrantes, incentivando sua participação em atividades comunitárias e oferecendo assistência aos mais necessitados.
Uma abordagem única seria impraticável, devido à grande diversidade cultural dos imigrantes. Manter a identidade de oriundos da pátria-mãe tornava-se um desafio. Os valores básicos seriam frágeis e desconhecidos, até mesmo por não serem únicos na origem. A criação de um baluarte da italianidade geraria contraposições dentro das próprias colônias já então sendo formadas aqui.
Muitas vezes geraria até mesmo reações violentas, contra propostas e ações, mesmo aquelas conduzidas por notáveis itálicos. Os representantes dos governos das origens fixavam-se em personalidades muitas vezes não reconhecidas como autoridades pela grande população imigrantes. (1)
Em Santos, no entanto, surgiu uma iniciativa em 1897, liderada por itálicos estabelecidos na cidade. Um grupo formado por Paolo Santucci, Silvério Maimone, Domingos Spinelli, Antonio Aulicino, Emilio Christiani, Carlos Usiglio e C. Fiorani, que conseguiram agregar mais uma centena de conterrâneos em torno do mesmo ideal. Fundar uma entidade de apoio aos chegados a Santos e estabelecidos aqui.
A data era 22 de agosto de 1897 e, para abrigar a sede da entidade, foi escolhida uma casa na antiga Rua do Rosário, 122 (hoje Rua João Pessoa), no centro de Santos. Seu primeiro presidente da Societá foi Silvério Maimone. Surgia a Societá Italiana de Beneficenza para prestar assistência aos imigrantes italianos que chegavam ao Brasil pelo porto de Santos. Uma vitória para os chegados ao novo país, mesmo com tanta diferença cultural e de região entre eles.
Mais tarde, a sede da Società foi transferida para um edifício mais espaçoso, na Rua Eduardo Ferreira, 79. Lá funcionou uma escola primária, especialmente dirigida para filhos de imigrantes. Muitas atividades culturais, sociais, de recreação. Vários cursos, até em tecnologia, foram criados para jovens, tornando-os aptos ao trabalho.
O desenvolvimento das ações foi benéfico e construtivo. Mas somente até o início da II Guerra Mundial. Todas as atividades da já agora consolidada Societá, focavam-se em um único país, a Itália. E apesar da grande diversidade cultural dos imigrantes, o Brasil estava contra o Eixo, países que congregavam Itália, Alemanha e Japão. Juntos eram inimigos do Brasil e de todos os países aliados contra o Eixo.
O prédio da Societá foi lacrado. Documentos apreendidos, muitos foram perdidos. A escola primária nunca mais voltaria a funcionar.
Tudo mudou com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Ao declarar guerra à Itália, Japão e Alemanha, em 22 de agosto de 1942, o governo brasileiro ordenou o fechamento de todas as entidades ligadas a esses países, O prédio da Societá, lacrado, e sua documentação, confiscada, ficou sob a guarda do Consulado da Suíça até o fim do conflito, a 8 de maio de 1945.
(1) O Livro de Angelo Trento, Do Outro Lado do Atlântico, aborda com profundidade esse problema em suas páginas, a partir do capítulo 4
Enviado por:
Silvio Enio Bergamini Filho



