Conexão com “italianos” vem desde os tempos coloniais
Celebrando os 150 anos da Imigração Italiana no Brasil, é momento de reverenciar a profunda ligação entre as pessoas das localidades que hoje formam a Itália e a cidade de Santos, uma história que se entrelaça desde os tempos coloniais.
Durante o reinado de D. Diniz em Portugal (1279-1325), a estratégia de fortalecer a armada nacional desencadeou a plantação de extensos pinhais, destinados à construção de navios. O monarca, percebendo a importância de ampliar as capacidades marítimas do país, buscou também a expertise dos navegadores “italianos” (Sempre lembrando que a Itália, como a conhecemos, nasceu apenas em meados do Século 19, por isso as aspas). Um exemplo dessa integração foi a nomeação do genovês Manuel Pessanha como o primeiro Almirante de Portugal em 1312, simbolizando o início formal da marinha portuguesa.
Séculos mais tarde, essas conexões iniciais entre Portugal e as cidades-estado que comporiam a futura Itália tiveram um papel significativo na chegada dos primeiros “italianos” ao Brasil. Durante a era das grandes navegações, navegadores habilidosos de cidades-estado como Florença, Gênova e Veneza se juntaram à marinha portuguesa. Eles ocuparam posições de destaque como capitães, pilotos e marinheiros, além de mercadores, agentes comerciais e até nobres que buscavam refúgio de perseguições políticas. Entre estes destacava-se Américo Vespúcio, o ilustre explorador florentino, cuja presença no Brasil durante a colonização incentivou a chegada de mais “italianos”, estabelecendo assim as raízes de uma profunda conexão entre os dois povos.
Em 1532, Martim Afonso de Souza trouxe para o Brasil os irmãos Giuseppe, Francesco e Paolo Adorno. Giuseppe, radicado em Santos, tornou-se amigo de Anchieta e Nóbrega e, juntamente com Brás Cubas, Pascoal Fernandes e outros, foi peça-chave na fundação da vila santista, ganhando a alcunha de “o genovês”. Seus canaviais e engenhos de açúcar o transformaram em um dos homens mais ricos da região.
Giuseppe Adorno e seus irmãos foram fundamentais na construção dos primeiros engenhos de açúcar do país. Paolo Adorno, colaborador de Mem de Sá, casou-se com uma índia, enquanto Francesco seguiu para Portugal em 1572. Giuseppe, segundo Frei Gaspar da Madre de Deus, viveu mais de um século, deixando marcas não apenas em Santos, mas também na fundação do Rio de Janeiro e na expulsão dos franceses da Baía da Guanabara.
A chegada da família real portuguesa em 1808, a abertura dos portos por D. João VI, e mais tarde, o casamento de D. Pedro II com a princesa napolitana Dona Tereza Cristina, ampliaram significativamente a imigração italiana. Em homenagem à princesa, o rei de Nápoles e das duas Sicílias incentivou a emigração de seus súditos para o Brasil, trazendo famílias de artistas, professores, alfaiates e artífices.
A partir de 1874, considerado o início da grande imigração italiana, trabalhadores rurais começaram a chegar em massa, principalmente para as lavouras de café, sempre incentivados pelo governo. Embora o fluxo migratório tenha sido interrompido duas vezes devido às denúncias sobre as condições de trabalho, por volta de 1886, muitas famílias italianas já estavam estabelecidas e crescendo, seja como pequenos proprietários, trabalhadores industriais ou agricultores nas zonas cafeeiras do Vale do Paraíba e nas regiões Noroeste e Mojiana de São Paulo. A abolição da escravatura catalisou ainda mais a imigração italiana, preenchendo a lacuna de mão de obra nas fazendas de café.
Três fatores impulsionaram a imigração italiana: a gradual extinção da escravatura, a expansão da cultura do café, e o desenvolvimento contínuo das ferrovias. As adversas condições de vida na Itália, marcadas por pobreza, pequena extensão territorial, alta taxa de natalidade, e conflitos internos, fomentaram no povo italiano um crescente desejo de emigração.
Até aproximadamente os anos 1960, levas de italianos continuavam a chegar ao Brasil, através do Porto de Santos, formando uma das maiores comunidades de imigrantes no país. Hoje, a influência italiana está tão entranhada na cultura brasileira que, em lugares como o Brás e a Moóca na capital de São Paulo, os traços distintivos italianos se mesclaram com a diversidade local. Quase todos em São Paulo têm alguma descendência italiana, mas são raros os representantes diretos das primeiras ondas de imigração. Em Santos, essa condição se repete.
Enviado por:
Sergio Willians dos Reis



