Entre o porto e a pátria distante: a colônia italiana de Santos na I Guerra Mundial (1915–1919)
Quando a Itália entrou na Grande Guerra, em maio de 1915, a cidade de Santos não era apenas um porto estratégico do Atlântico Sul — era também um coração pulsante da italianidade no Brasil. Ali, nos salões da Società Italiana di Beneficenza, na Rua Eduardo Ferreira, e sob a tutela do vice-consulado italiano, a colônia organizou-se em torno de uma guerra que se travava longe, mas cujas reverberações atravessaram oceanos e chegaram às calçadas santistas.
A resposta foi imediata. Chamados públicos conclamaram os italianos a uma “disciplina moral e econômica” durante o conflito; formou-se um Comitato Pro-Patria, espelho das iniciativas patrióticas que surgiam entre diásporas italianas mundo afora. Em paralelo, um anúncio marcante, publicado na imprensa local, convocava “Alle donne italiane di Santos” para constituírem uma associação feminina dedicada a socorrer civis das regiões invadidas — gesto que revela não apenas solidariedade transnacional, mas também o protagonismo de mulheres italianas em redes filantrópicas que a própria historiografia nacional raramente menciona.
A guerra mobilizou recursos, afetos e símbolos. Houve alistamento voluntário, coleta de donativos, quermesses e subscrições. Em 1918, no auge da gripe espanhola, a SIB colocou um automóvel à disposição gratuita da cidade, oferecendo transporte e assistência médica — uma interseção rara entre caridade étnica e serviço público. Ao mesmo tempo, inaugurava suas salas escolares e fortalecia a Escola Alessandro Manzoni, reafirmando um ideal de educação comunitária que conectava Santos a Roma e aos princípios de civilidade e instrução que marcavam a emigração italiana organizada.
Com o armistício, vieram os rituais cívicos. A festa pela vitória italiana em novembro de 1918 reuniu SIB, Comitato e Unione Femminile Italiana, celebrando o triunfo que muitos santistas acompanharam por telegramas e crônicas transatlânticas. Em março de 1919, o porto recebeu reservistas retornados do navio Tommaso di Savoia, acolhidos com discursos, bandeiras e emoção. Santos, que enviara filhos e recursos à pátria distante, agora recebia seus soldados de volta — cena que cristaliza a dimensão global da cidade e a intensidade de seus vínculos mediterrâneos.
Esse capítulo, quase ausente da narrativa histórica brasileira sobre a I Guerra Mundial, revela um campo rico e pouco explorado: o da mobilização civil transnacional, organizada por imigrantes em cidades portuárias. Em Santos, italianidade e brasilidade coexistiram, às vezes tensas, às vezes irmãs. A guerra não foi apenas um evento distante; foi vivida nas reuniões da SIB, nas manchetes de A Tribuna, nas mãos que costuraram bandeiras e nas famílias que choraram longe dos campos de batalha.
Hoje, entre arquivos dispersos, registros frágeis e memórias silenciosas, resta o trabalho de reunir essas peças — como quem recolhe cacos de uma ânfora antiga para recompor uma história que atravessou oceanos. Porque ali, nas páginas amareladas resgatadas, está viva a lembrança de uma Santos que respirava café, maresia e italianidade; e que, diante da guerra, respondeu com organização, afeto, solidariedade e comunidade.
_______
Nota: a participação do Brasil na I Guerra foi modesta, mas não sem valor! Inicialmente, optou-se pela neutralidade mas, o ataque alemão aos nossos navios mercantes fez com que o Brasil tomasse o partido dos aliados. Nossos portos facilitaram o acesso às embarcações aliadas; aviadores brasileiros combateram ao lado de pilotos britânicos e franceses; oficiais do exército serviram na Frente Ociedntal, em unidades do exército francês; mais de oitenta médicos, quase todos civis, integraram a Missão Médica de 1918 e a Divisão Naval de Operações de Guerra foi enviada para Gibraltar, com uma frota composta por dois cruzadores, cinco contratorpedeiros, um navio auxiliar e um rebocador – não participaram do conflito porque foram retidos na costa africana por conta da terrível pandemia da gripe espanhola, que se alastrou entre passageiros e tripulantes após uma escala em Dakar.
Bibliografia consultada
A Tribuna, edição 64, 1915
A Tribuna, edição 66, 1915
A Tribuna, edição 227, 1917
A Tribuna edição 3, 1918
A Tribuna, edição 180, 1918
A Tribuna, edição 217, 1918
A Tribuna, edição 220, 1818
A Tribuna, edição 249, 1918
A Tribuna, edição 339, 1919
A Tribuna, edição 55, 1921
Artigo – Missão Médica Brasileira na l Guerra Mundial
O texto final foi produzido em parceria humano-IA, com base em pesquisa original em hemerotecas digitais abrangendo o período de 1907 a 1921, integralmente realizada pela pesquisadora humana.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



