A visita da Missão dos Mutilados Italianos à Santos
Em 1921, o tenente italiano Carlo Delcroix visitou o Brasil durante um giro pela América do Sul, que incluiu também a Bolívia, a Argentina e o Uruguai, apresentando conferências com o propósito de angariar donativos para minorar o sofrimento dos feridos e mutilados italianos nos conflitos da I Guerra. Vindo de Buenos Aires, Delcroix primeiro esteve no Rio de Janeiro, onde foi recepcionado por um grande número de membros da colônia italiana carioca. Na sequência, veio para o estado de São Paulo, desembarcando no porto de Santos, onde foi recebido com festa pela comunidade italiana e pelos dirigentes da Società Italiana di Beneficenza.
Carlo Delcroix, nascido em Firenze em 1886, era neto de belga por parte de pai. Seu avô, Nicola, se transferiu para a Calabria, depois para Puglia, Basilicata, Sicilia e por fim, para a Toscana. A família de sua mãe, por sua vez, era toscana, de Castelluzzo. Em 1914, Delcroix se inscreveu na faculdade de Direito e frequentou a escola de oficiais de Modena. Em 1915, integrou o 3º. Regimento de Bersaglieri, destacando-se nas diversas campanhas que participou. Promovido à tenente em fevereiro de 1917, foi instrutor nas unidades de lançadores de granadas de mão e em Malga Ciapela.
Naquele mesmo ano, durante exercícios táticos, Delcroix foi informado que um Bersagliere tinha sido atingido por uma bomba não detonada. Heroicamente, ele percorreu a área de risco na esperança de salvar o companheiro, que infelizmente não sobreviveu. Delcroix não só transportou o corpo do soldado morto como também procedeu sozinho a limpeza das granadas não detonadas, para não expor seus companheiros aos riscos da tarefa. Durante essa perigosa função, uma bomba escondida sob a neve explodiu e lhe custou a perda das mãos e da visão. Pelo seu ato de bravura foi premiado com a medalha de prata de valor militar e posteriormente, também com as medalhas da Ordine Civile di Savoia, do Gran Cordone della Corona d’Italia, da Ordine dei Santi Maurizio e Lazzaro e da Legione d’Onore francesa.
Após um longo período de recuperação e tratamento, Delcroix dedicou seu tempo proferindo discursos em hospitais e escolas de Firenze, divulgando a problemática dos soldados feridos e mutilados. Foi assim que conheceu Cesara Rosso, no ospedale Villa Pisa em San Domenico di Fiezole. Casou-se com Cesara em janeiro de 1921 e se referia à amada dizendo “colei che in me vive la passione dell’opera e mi presta le mani per compirla”.
Com o fim da guerra, finalizou os estudos na faculdade de Direito de Siena e deu seguimento à sua carreira como orador e divulgador dos trabalhos da Associazione Nazionale dei Mutilati e Invalidi di Guerra – ANMIG, da qual se tornou presidente em 1924. Foi durante esse período que empreendeu as conferências na América do Sul.
Em sua visita à Santos, Delcroix e outros membros da sua comitiva foram recebidos pelo vice-cônsul da Itália, conde Ottavio Gloria, pelo presidente da Società, Cavaleiro Augusto Marinangeli e outros membros da colônia italiana estabelecida na cidade. Na elegante sede da Società, associados e seus familiares, além de reservistas italianos, aguardavam Delcroix no salão nobre para as apresentações artísticas dos alunos da escola mantida pela instituição. Em seguida, a sessão solene foi presidida pelo Cav. Augusto Marinangeli, que discursou de maneira emocionada acerca dos atos heroicos do convidado e de sua dedicação aos mutilados de guerra. O vice-consul também discursou brevemente, saudando Delcroix, que gentilmente, agradeceu a todas as manifestações de simpatia e acolhimento. Finalizadas as solenidades, o tenente Delcroix e sua comitiva seguiram para a estação da SP Railway, no Valongo, onde embarcaram para São Paulo.
Coube ao vice-cônsul italiano organizar a lista de subscrições a favor da associação representada por Delcroix. Dentre aqueles que contribuíram para a causa estavam o próprio Ottavio Gloria, Augusto Marinangeli, Carmine Poccia, José Affonso Pellegrini, Salvador Molinari, Miguel Cirillo, Nino Paganetto, Domenico Bava, Antonio de Maria, funcionários dos bancos Italiano de Descontos, do Frances e Italiano e do Ítalo Belga, funcionários da Casa Picone, da Companhia Puglisi e da Sociedade Martinelli . Até mesmo os garçons do Parque Balneário Hotel e os alunos da escola da Società fizeram questão de contribuir à causa, reforçando o apreço e a conexão da comunidade italiana com a pátria distante.
*Informações complementares: Claudio Delcroix foi deputado fascista de 1924 a 1943 e pelo partido nacional monárquico de 1953 a 1958. Foi presidente da Associazione Nazionale Mutilati e Invalidi di Guerra (1924-1943). Faleceu em Roma, em 1977.
Fontes consultadas
Delcroix, Carlo. Enciclopedia Italiana. Disponível em http://www.treccani.it/enciclopedia/carlo-delcroix_(Enciclopedia-Italiana)/
Mutilati e Invalidi di Guerra. Enciclopedia Italiana. Disponível em http://www.treccani.it/enciclopedia/mutilati-e-invalidi-di-guerra_(Enciclopedia-Italiana)/
Missão dos Mutilados Italianos na Grande Guerra. A Tribuna, edição 90, 1921
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



