A colônia italiana em Santos e o casamento real na Itália
Em janeiro de 1930, o casamento do príncipe Umberto de Savoia com a princesa belga Maria José foi destaque nos jornais e agitava a colônia italiana em Santos. A matéria de capa do jornal A Tribuna descrevia, com ricos detalhes, a chegada da comitiva da princesa à Roma e a extensa agenda de compromissos na capital italiana, mas o que realmente me chamou a atenção, foi uma curiosa nota nas páginas subsequentes. Nela, o vice-cônsul da Itália em Santos, o Cavaleiro Leone Sircana, convidava as colônias italiana e belga estabelecidas na cidade para um encontro na sede da Società Italiana di Beneficenza, onde discorreria sobre o casamento do príncipe Umberto di Savoia com a princesa Maria José.
De fato, ao longo da semana que precedeu o enlace a imprensa local dedicou matérias diárias sobre o tema, descrevendo detalhes dos preparativos. O envolvimento da colônia italiana santista foi tal que no dia do casamento real reuniram-se em festa. Na hora do almoço houve uma salva de 21 disparos de morteiros e à noite, a sede da Società, além da conferência proferida pelo vice-cônsul, ofereceu aos seus associados um grandioso baile comemorativo.
Mas afinal, o que haveria de tão especial nesse matrimônio e seus personagens principais?
Umberto Nicola Tommaso Giovanni Maria di Savoia nasceu em 15 de setembro de 1904, em Cuneo, no Piemonte. Era o terceiro filho do rei da Itália, Vittorio Emanuel III e de Elena del Montenegro. Recebeu uma formação rigorosa e severa, seguindo a tradição sabauda. Ingressou no colégio militar de Roma em 1919. Umberto se revelou um oficial rigoroso, mas gentil e justo, admirado pelos seus subordinados e por seus colegas. Ao terminar com destaque a academia militar, mudou-se para Torino. Mussolini temia a crescente popularidade do príncipe e o mantinha em estreita observação por meio da sua polícia secreta, a Opera Vigilanza Repressione Antifascista. Na verdade, Umberto era um antifascista discreto, que manifestava suas opiniões em ambientes restritos ou privativos.
Em 1929, a corte belga anunciou solenemente o noivado da filha única do Rei Alberto I, a princesa Maria José, com o príncipe herdeiro da Itália, Umberto. Entretanto, o enlace vinha sendo engendrado já há um bom tempo. O primeiro encontro deles ocorrera em 1916, quando Umberto tinha 12 anos e a princesa, 10. Na época, Maria José estudava no colégio fiorentino de Santissima Annunziata, para onde lhe enviou seu pai, para que aprendesse a cultura e a língua italiana. Certa vez, Maria Jose escreveu “fin dalla giovinezza fui allevata nell’idea che un giorno avrei sposato Umberto, l’erede del trono d’Italia. Tale prospettiva aveva assunto nella mia mente di fanciulla la forma di un sogno dorato, di una fiaba. Mia madre nutriva la mia speranza. Mi parlava dell’affascinante principe in termini tanto seducenti che egli per me incarnò l’apogeo delle perfezioni”.
Anos mais tarde, Maria José e Umberto formavam um casal elegante e belíssimo e provavelmente, por representarem um “conto de fadas” no imaginário popular, todas as etapas dos preparativos matrimoniais foram acompanhadas com atenção e curiosidade.
No dia 24 de outubro de 1929, aniversário de casamento dos pais de Umberto, o noivado foi anunciado e as bodas marcadas para 8 de janeiro de 1930. Umberto tomou a frente das decisões, inclusive do vestido da noiva! Maria José desejava algo mais simples e moderno, mas Umberto definiu que o vestido seria clássico e grande, obviamente realizado por um italiano, no caso, a sartoria milanese Ventura – mas o desenho foi assinado pelo próprio príncipe! Ao vestir-se, Maria José teria murmurado “sembro uma Vergine in processione!”.
A cerimônia religiosa se realizou em Roma em 08 de janeiro de 1930, na Cappella Paolina del Quirinale, oficializada pelo arcebisbo de Pisa, o cardeal Aurelio Maffi. Depois da cerimônia religiosa, os noivos se transferiram para outra parte do Quirinalle para as formalidades documentais. Foi nesse momento que até Mussolini quis dar pitacos e sugeriu à noiva que adotasse a grafia italiana de seu nome, Maria Giuseppina – o que foi absolutamente refutado por ela, para o constrangimento do noivo!
O fato da colônia italiana santista se manter tão ligada aos eventos na Itália, participando ativa e continuamente do cotidiano distante, demonstra o quanto os seus laços se mantiveram forte, mesmo décadas depois de emigrados. O Vice-Consulado da Itália em Santos e, principalmente, a Società Italiana di Beneficenza, foram primordiais para que o estreito vínculo com a terra natal se mantivesse, fazendo jus aos princípios de sua fundação no longínquo ano de 1897.
Fontes consultadas
A Tribuna, edição 285, 1930
Umberto II di Savoia, re d’Italia. Dizionario Biografico degli italiani. Disponível em http://www.treccani.it/enciclopedia/umberto-ii-di-savoia-re-d-italia_(Dizionario-Biografico)/
Il matrimonio tra Umberto II di Savoia e Maria Josè del Belgio. Disponível em http://www.historiaregni.it/il-matrimonio-tra-umberto-ii-di-savoia-e-maria-jose-del-belgio/
Sugestões:
Fidanzamento e nozze di Re Umberto II e della Regina Maria Jose di Savoia di Savoia. Vídeo disponível no Youtube, “Real Casa di Savoia Official Page”
Livro: Maria José. Regina indômita, de Luciano Regolo
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



