Entre obras e vestígios: Del Favero no Museu de Arte Sacra
Um percurso pelo Museu de Arte Sacra de Santos a partir da presença do escultor e entalhador italiano
A visita ao Museu de Arte Sacra de Santos não começa, necessariamente, pelas obras. Ela começa pelo percurso.
Instalado no conjunto do Mosteiro de São Bento, no antigo Morro do Desterro, o museu ocupa um espaço cuja história antecede em séculos a própria formação de seu acervo. A primitiva ermida de Nossa Senhora do Desterro, construída por volta de 1630, deu origem tanto ao mosteiro quanto ao primeiro nome do morro, em um ponto estratégico da vila — afastado do núcleo urbano, mas articulado às rotas de chegada e partida.
Ali, ao longo do tempo, sobrepuseram-se funções: espaço de devoção, moradia monástica, enfermaria em períodos de epidemia, internato, até sua institucionalização como museu em 1981. Hoje, tombado nas três esferas de preservação, o conjunto abriga um acervo com mais de 600 peças, produzidas entre os séculos XVI e XXI. Entre elas, algumas das mais antigas imagens sacras do Brasil.
A imagem de Nossa Senhora da Conceição, em barro cozido policromado, atribuída a João Gonçalo Fernandes, datada de cerca de 1560, é considerada uma das primeiras esculturas sacras produzidas no país. A imagem de Santa Catarina de Alexandria, do século XVI e que deu o nome ao Outeiro, carrega consigo uma narrativa própria: lançada ao mar durante a invasão de Thomas Cavendish em 1591, teria sido resgatada décadas depois, em 1663, e associada, desde então, a um episódio considerado milagroso. Já a imagem de Sant’Ana Mestra, do século XVIII, evidencia a exuberância formal do barroco, com volumetria acentuada, movimento e riqueza decorativa.
O acervo, portanto, não é apenas significativo — é estruturante para a compreensão da produção sacra no Brasil. Mas é no interior desse conjunto, entre peças de grande notoriedade histórica, que surgem presenças menos evidentes.
Foi durante essa visita — atravessada por camadas de tempo, estilos e deslocamentos — que o nome de Marino Del Favero apareceu. Não como destaque, mas como vestígio.
Escultor e entalhador italiano, nascido em 1864 na região do Vêneto, Del Favero formou-se no ambiente das botteghe tradicionais, inicialmente sob a orientação de seu tio, Giovanni Battista De Lotto “Minoto”, e posteriormente na Accademia di Belle Arti di Venezia. Sua trajetória acompanha um movimento mais amplo de circulação de artistas italianos no final do século XIX, articulando formação técnica, prática em oficina e migração.
Segundo Cavaterra (2015), Del Favero chega ao Brasil por volta de 1893 e se estabelece em São Paulo, onde atua por cerca de cinquenta anos. Sua produção se organiza tanto em obras próprias quanto na estrutura de uma oficina, atendendo à demanda por arte sacra em diferentes regiões do país. Seu nome aparece em retábulos, imagens e mobiliário religioso espalhados por diversos estados brasileiros, além da Argentina. Ainda assim, permanece pouco consolidado na bibliografia, surgindo de forma fragmentada em periódicos e estudos pontuais.
Em Santos, sua presença é específica, são intervenções em estruturas preexistentes e em conjuntos de imaginária, no Museu de Arte Sacra e no Santuário de Santo Antônio do Valongo, onde assina o frontal da mesa do altar e o sacrário com trono giratório, inseridos na reforma realizada entre 1935 e 1936.
No conjunto do Mosteiro de São Bento, elementos como relevos e intervenções em retábulos indicam a atuação direta de Del Favero no espaço, com um grupo de imagens ali preservadas e expostas no museu: Senhor Morto, Nossa Senhora das Dores e Senhor Bom Jesus. Esculpidas em escala natural e originalmente destinadas ao uso devocional, essas peças não foram concebidas como objetos de exposição. Sua presença no museu é resultado de um deslocamento — da prática religiosa para a preservação institucional.
Na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, Marino Del Favero introduz um relevo no frontal da mesa do altar do retábulo lateral de Nossa Senhora do Pilar, representando a Aparição do Menino Jesus à Santo Antônio, atualmente com sua policromia removida, deixando aparente a madeira de pinho.
No contexto santista, Del Favero não aparece como autor de obras monumentais isoladas, mas como um agente que atua na matéria do espaço religioso, seja produzindo imagens, seja intervindo em estruturas já existentes. Sua presença não se impõe — se infiltra.
E talvez seja justamente por isso que, diante de um acervo marcado por peças de grande valor histórico e artístico, Marino Del Favero possa passar despercebido. Mas não ausente. Há algo de semelhante na própria presença italiana em Santos: não necessariamente evidente, nem sempre nomeada, mas persistente — atravessando a cidade naquilo que a estrutura, mais do que naquilo que se destaca. E como camada, uma vez reconhecida, passa a reorganizar a percepção.
Leitura recomendada
Para uma compreensão mais aprofundada sobre a trajetória e a obra de Marino Del Favero, indicamos a leitura de Cavaterra (2015), que reúne levantamento documental, análise de obras e referências em periódicos de época.
Cavaterra, Cristina Antunes – Marino Del Favero, escultor e entalhador (1864-1943), dissertação de mestrado, UNESP (2015)
Enviado por:
Giany Gonze Tellini Pesquisa histórica, narrativa e análise Vespucci — assistência editorial responsável (IA generativa utilizada eticamente, como ferramenta de apoio à organização e clareza do texto, sem invenção e sem plágio.)



