Os rios do Centro Histórico e as suas correlações com a presença italiana
Se voltássemos aos primórdios da pequena vila fundada por Braz Cubas a partir das imediações do Outeiro de Santa Catarina, nos surpreenderíamos com a exuberância da natureza intocada, com toda a região recoberta por densa vegetação e recortada por riachos, fato bem ilustrado em um artigo publicado em A Tribuna (2024), por Sergio Willians, e dos quais, exploraremos três deles com as referências atuais de suas antigas localizações, conectando-os, de certa maneira, com a “italianidade remota” de Santos.
O mapa abaixo, publicado em A Tribuna (1939), tenta reconstituir a topografia de Santos em 1765, indicando os traçados dos riachos que cortavam a vila e suas principais construções e referências.
O riacho de Nossa Senhora do Desterro (ou de São Bento) tinha sua nascente nas encostas do Morro São Bento, o seu curso passava à frente da Igreja de Santo Antonio do Valongo, seguia onde hoje temos a estação da antiga SP Railway e desaguava no estuário.
O riacho de São Jerônimo foi canalizado no final do século XIX e seu curso passa pela Cadeia Velha, segue ladeando o Teatro Guarany, depois parte da rua XV e desce pela tortuosa e estreita Rua Conde D’Eu, que revela o traçado final do riacho antes de desaguar no estuário.
O rio Itororó (ou do Carmo) tinha a sua nascente no sopé do Monte Serrat e banhava as terras do então Convento do Carmo, até desaguar no estuário. Como referência, seu trecho final corresponde hoje à rua Augusto Severo, ladeando a Praça Mauá.
Feitas as referências da localização dos antigos riachos da vila santista, vamos às evidências da presença remota de italianos em Santos. Nos idos anos 1530, os genoveses Adorno integraram a armada de Martim Afonso por indicação dos fiorentinos filhos de Bartolomeu Marchioni. A expertise dos Adorno na produção açucareira, adquirida após anos de experiencia na Ilha da Madeira, fez com que aportassem em nossa região e instalassem aqui um dos primeiros engenhos de açúcar. Todo o maquinário para o Engenho São João foi trazido da Ilha da Madeira e instalado em terras recebidas da coroa portuguesa, entre os riachos do Desterro e São Jerônimo.
Por característica, os engenhos podiam ser movidos por força humana (africanos e índios escravizados), por tração animal ou por força de cursos de água. É aqui que entra o riacho São Jerônimo, que tinha volume e força suficientes para impulsionar as pás do engenho dos Adorno. A imagem abaixo, do livro “Viagens ao nordeste do Brasil”, de Henry Koster, ilustra um desses engenhos movidos à curso de água, já no século XIX e, portanto, bem mais elaborado do que teria sido o engenho dos Adorno em Santos, uns 250 anos antes!
Com essas informações, convido nossos leitores a um exercício de imaginação e de viagem no tempo: a caminho do Centro Histórico pelo túnel Rubens Ferreira Martins, ao passar do lado da praça dos Andradas, seguindo o trecho da Rua XV e depois da Conde d’Eu em direção ao porto, reproduzirá o antigo curso do rio que movia o engenho dos Adorno, o São Jerônimo. Ao seu entorno estavam as instalações do engenho e, provavelmente, a sede e também as plantações de cana-de-açúcar! Ali, você revisitará a presença italiana mais remota que temos notícias em nossa cidade, dos genoveses, ligados a nós desde os primórdios da nossa história.
Por fim, uma última curiosidade, que de certa maneira conecta o terceiro rio, o Itororó, com a herança italiana: os engenhos costumavam ter a sua própria capela e a dos Adorno ficava onde hoje é a esquina da rua do Comércio e a José Ricardo.
A Capela de Nossa Senhora da Graça resistiu até o século XIX, quando foi demolida para o alargamento da rua. De fato, em 1902, a capela sofria por anos de abandono, decadência e degradação e não havia qualquer interesse em preservá-la ou restaurá-la. Na imagem abaixo, em primeiro plano, à direita, é a Capela da Graça, construída pelos Adorno no século XVI. O edifício em obras logo adiante, é a Casa da Frontaria Azulejada e ao fundo, onde termina a rua, é o Santuário Santo Antonio do Valongo.
A capela foi desapropriada no início do século XX e, como a associação carmelita tinha a posse dele por doação de Giuseppe Adorno desde o século XVI, foi indenizada de seis contos de reis.
Conhecer as referências espaciais da nossa cidade que nos remetam ao passado é um recurso de inestimável valor para ressignificar a presença italiana em Santos. Ao passar por esses locais, por mais descaracterizados que estejam, temos a oportunidade de despertar sensações de pertencimento e proximidade com a própria história de itálicos e italianos que participaram da construção de Santos.
Fontes consultadas:
LORDELLO, Eliane. O nosso bom e velho Henrique da Costa. Ou Henry Koster, o mais fiel retratista da paisagem brasileira (2018). Disponível em https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.204/7198 consultado em 20/04/2025.
WILLIANS, Sergio – Conheça e entenda a parte hidrográfica de Santos, disponível em
Novo Milênio – Telas de Benedito Calixto. Capela da Graça
Leia também:
O monumento aos fundadores da Cia Docas de Santos, na Praça Mauá
O monumento a Bartolomeu de Gusmão, na Praça Ruy Barbosa
A capela da Graça
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



