O café, o escravo e o imigrante
Embora seja difícil precisar, a produção cafeeira no Brasil teve o seu início ainda no período colonial, no final do século XVIII. Tratava-se de uma produção precária, no Rio de Janeiro e destinada ao consumo interno, mas isso mudaria em breve. A cultura cafeeira tomaria força justamente nas primeiras décadas do século XIX e o Brasil-Império nunca dependeria tanto da mão de obra de pessoas escravizadas para alavancar o promissor mercado do café para exportação!
Ma vi siete mai chiesti che cosa è il caffè? Il caffè è una scusa per dire ad un amico che gli vuoi bene
Luciano de Crescenzo*
A revolução industrial, iniciada na Inglaterra no final do século XVIII e início do XIX, seria o divisor de águas para as sociedades humanas, impulsionadas agora pelo poder produtivo, pelo comércio e pelos serviços. A nova estruturação do trabalho chegava para banir, em definitivo, a escravização de pessoas, e o Brasil-Colônia, e depois, Império, que por três séculos vivenciou o intenso comércio de vidas humanas promovido pela Coroa portuguesa, via-se agora num impasse de difícil solução.
Na década de 1860, somente Cuba, Porto Rico e o Brasil-Império ainda utilizavam o trabalho escravo, com péssima repercussão internacional. O Brasil-Império se viu pressionado pela nova ordem mundial a promover o fim da utilização do trabalho escravo, mas a dependência dele o impedia de uma mudança radical, principalmente porque nas primeiras décadas do século XIX, o país experimentaria um novo direcionamento da sua economia – o mercado cafeeiro – que dominaria o não só o cenário econômico, mas também cultural, político e social até os primeiros anos do século XX.
Diante desse contexto, com a intenção de protelar ao máximo a extinção da mão de obra escravizada e ao mesmo tempo atender às pressões internacionais, o Brasil-Império promulgou diversas leis abolicionistas como a Eusébio de Queirós (1850), a do Ventre Livre (1871) e a dos Sexagenários (1885), até que finalmente a abolição definitiva da escravização ocorresse em 1888, com a Lei Áurea. Com essa estratégia, a diminuição da população de escravizados se arrastou por quase um século, antes de ser extinta!
A Província de São Paulo, até o início do ciclo cafeeiro, nunca havia suplantado a população de escravizados do Nordeste ou das zonas de mineração, mas a partir da expansão desse mercado e da carência de mão de obra, esse cenário muda. Mesmo com valores absolutos menores, percentualmente o aumento foi expressivo, indicando que estava absorvendo a mão de obra escravizada excedente de outras regiões – ou recorrendo ao tráfico ilegal e contrabando.
Estimativa da população escravizada nas áreas de mineração (Minas Gerais), na sede do governo (Rio de Janeiro) e nordeste açucareiro (Bahia e Pernambuco) em comparação à São Paulo – 1819 a 1887
Santos, como berço da colonização portuguesa no Brasil, utilizou da mão de obra de escravizados desde o século XVI. Por outro lado, a cidade também teve um papel fundamental para o abolicionismo no século XIX, quando se tornou a meca dos escravizados fugidos das fazendas cafeeiras, com inúmeros quilombos e bairros de africanos livres. Desde a década de 1870, muitos santistas militavam pela alforria de escravos que vagavam pelas ruas e se ocupavam em trabalhos portuários braçais de carregamento e descarregamento de mercadorias nos antigos trapiches. Diversos desses escravos pertenciam a fazendeiros do interior, que os enviavam à Santos para servir nas casas comissárias.
A SUBSTITUIÇÃO DOS ESCRAVOS PELOS IMIGRANTES
As políticas imigratórias no Brasil colonial sempre foram muito restritivas. Alguma abertura na colônia foi experimentada no início do século XIX, quando a Corte portuguesa de D. João VI aqui se refugiou, elevando-a à condição de Reino Unido de Portugal, do Brasil e Algarves. O governo imperial visava estimular a imigração em núcleos coloniais, com acesso à propriedade e com o objetivo ocupação do território desabitado. No contexto do ciclo do café, as metas eram bem diferentes, principalmente sob o ponto de vista dos grandes cafeicultores do centro-sul em meados dos anos 1800, para eles, a importação de mão de obra europeia serviria para superar a escassez de trabalhadores, e de preferência, com baixo-custo.
De fato, no período de 1875 a 1900, 803 mil imigrantes europeus chegaram aos portos brasileiros e, deste total, cerca de 577 mil eram italianos. São Paulo absorveu mais de 320 mil desses italianos, principalmente após o surgimento da Sociedade Promotora da Imigração em São Paulo (1866) e da Associação Auxiliadora da Colonização e Imigração (1871), com incentivos como subvenção estatal, gratuidade de passagens, recepção no porto de Santos, hospedagem em São Paulo, na Hospedaria do Imigrante, fundada em 1885 e o transporte até as fazendas contratantes.
Com tantos incentivos, aliados a fatores de expulsão de sua terra natal e de atração à vinda para a América, a imigração italiana tomou tal vulto até se transformar em um fenômeno de massa entre 1887 e 1902, contribuindo para um expressivo aumento demográfico no Brasil. Houve muitos percalços ao longo desse processo, muitos conflitos e também motivações secundárias, mas é incontestável que a vinda de um grande contingente de italianos para São Paulo, seja nas lavouras do oeste paulista, seja nas grandes cidades, contribuiu para a formação da nossa identidade, em vários aspectos, vivos ainda nos dias atuais, por seus descendentes.
Falando de Santos, a presença de estrangeiros aqui também foi incentivada pelo mercado do café. No século XIX, a imigração de portugueses não estava mais integrada ao projeto imperial de estado português, nesse momento, eles vinham atraídos pela oferta de trabalho e pelas possibilidades de investimento, comércio e serviços, tendo como facilitador a grande colônia de patrícios aqui já instalados. Estrangeiros de outras nacionalidades, que não portuguesa, também se estabeleceram em Santos, com os mesmos ideais de prosperidade no rastro do boom cafeeiro.
Os italianos, apesar de numericamente limitados em relação aos predominantes portugueses e espanhóis, ocupavam, à distância, o terceiro posto na população estrangeira santista. Em 1913, havia 39.802 estrangeiros em Santos, o que equivalia a quase a metade da população, a maioria destes eram portugueses (23.055 habitantes). Do restante, 8.343 eram espanhóis, 3.554 eram italianos e os demais, de nacionalidades diversas.
Diferente dos imigrantes italianos subvencionados que vinham para o trabalho na lavoura, os que se estabeleceram em Santos tiveram trajetórias distintas, provavelmente espontâneos, viajando com recursos próprios, seja vindo da Itália como também por mobilidade interna (de outras regiões do Brasil) ou externa (de outros países).
Frente a esses números, se faz presente o paradigma que nos move: a literatura sobre os italianos no litoral paulista é escassa e pouco documentada e, ao mesmo tempo, sabemos que eles estavam aqui, desempenhando papéis tão díspares como o trabalho braçal em substituição à mão de obra de pessoas escravizadas ou como investidores, empreendedores, comerciantes e artesãos! É o desconhecido que nos incentiva a buscar a reconstrução de suas histórias e que torna a nossa tarefa ainda mais interessante e desafiadora!
Convite aos leitores:
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Fontes consultadas:
BELMUDES, Ivan – Quilombos e personagens negros dão protagonismo a Santos na luta pela liberdade. Prefeitura de Santos, 18 de novembro de 2022. Disponível em https://www.santos.sp.gov.br/?q=noticia/quilombos-e-personagens-historicos-negros-dao-protagonismo-a-santos-na-luta-pela-liberdade consultado em 27/02/2025.
LANNA, Ana Lucia Duarte – Uma cidade na transição. Santos: 1870-1913. Editora Hucitec, 1995
FALEIROS, Rogério Naques – Do escravo ao imigrante: cafeicultura e relações de trabalho em São Paulo no século XIX. Leituras de Economia Política, Campinas, (8):87-110, jun. 2000/jun 2001.
TRENTO, Angelo – Do outro lado do Atlântico. Um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo. Editora Unesp, 2022.
* Luciano de Crescenzo (Napoli, 18 de agosto de 1928 – Roma, 18 de julho de 2019), foi um filósofo, escritor, diretor e ator italiano.
Anexo: Tabela apresentada por FALEIROS (2000-2001) e que serviu de base para a elaboração da quadro que apresentamos nesse artigo.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



