A Inspectoria da Immigração em Santos
Uma construção de 1906 resiste ao tempo e guarda em seus espaços vazios as histórias de tantos imigrantes que aportaram em Santos nas primeiras décadas do século XX. Na esquina das ruas Riachuelo e Tuiuti, nas proximidades do imponente e prestigioso prédio da Associação Comercial de Santos, está a antiga “Inspectoria da Immigração do Estado de São Paulo”. Pouco se sabe do seu passado, porém é possível imaginar o burburinho e a movimentação dos imigrantes recém-chegados.
A clássica fotografia de 1910 registra a chegada de imigrantes à Santos, momentos antes do navio atracar nas cercanias da Inspectoria, que ainda não tinha a ornamentação neoclássica em sua fachada.
Quando ainda na barra, aguardando autorização para aportar, uma barca da imigração levava os inspetores a bordo do navio para a verificação dos documentos dos imigrantes e também as suas condições de saúde.
Quando autorizado, o caótico desembarque ocorria no cais praticamente em frente à Inspectoria e os imigrantes com destino à São Paulo eram levados de carroça (e mais tarde de trem) à estação da “Inglesa”, assim que resolvidos os tramites burocráticos.
Um relatório da Inspectoria referente aos anos de 1910 e 1911 traz dados importantes. De acordo com essas informações, houve um aumento da entrada de embarcações ao longo do período de 1908 e 1911, principalmente daquelas que transportavam imigrantes:
Neste mesmo relatório há a descrição de alguns serviços a cargo da Inspetoria de Imigração de Santos, tais como a fiscalização das embarcações que chegavam ao seu porto, em especial, aquelas com imigrantes. Em 1911, o número de embarcações fiscalizadas foi de 1634 e foram lavrados 25 autos de infração. Destes autos, 24 se deviam a chegada de imigrantes maiores de 60 anos não acompanhados por parentes ou incapazes de comprovarem o parentesco com algum emigrado já estabelecido no estado de São Paulo. A autuação restante versava sobre o impedimento à entrada de uma pessoa com necessidades especiais, um homem incapaz para o trabalho por não ter as mãos.
Uma outra função da Inspectoria era prestar informações e orientar os imigrantes. Um informativo era distribuído aos passageiros e imigrantes em trânsito, bem como nos próprios vapores. Também disponibilizavam a cada imigrante no momento da chamada para desembarque um cartão que continha instruções básicas em linguagem simples, em quatro idiomas, abordando temas como transporte gratuito e hospedagem em São Paulo e colocação nos serviços de sua profissão.
Na abrangência do relatório, foram editados três números da revista “O Immigrante”, largamente distribuída pela Inspectoria. O terceiro número, por exemplo, teve uma tiragem de 10.000 exemplares. No Arquivo do Estado de São Paulo existem exemplares apenas do primeiro número.
O Decreto n. 1.458, de 1º de abril de 1907, dispõe sobre a imigração e colonização no território do Estado. Trata-se de uma referência relevante para compreendermos o papel da Inspectoria, entretanto, aborda o imigrante espontâneo, o subsidiado e o custeado por particulares, mas em nenhum momento, se reporta aos imigrantes que tinham como destino Santos, pairando sobre esses a dúvida de como efetivamente eram admitidos e se eram de alguma maneira assistidos.
Seriam os italianos destinados a Santos viajantes de outras categorias que não a terceira classe? Seriam clandestinos? Ou retornavam por via terrestre de outras localidades, cientes das oportunidades na cidade litorânea em franco crescimento? Essas são questões que esperamos um dia sanar!
Leitura recomendada
Cartilha “O Imigrante”. Publicação mensal da Secretaria da Agricultura. São Paulo (1908)
Decreto:
https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/decreto/1907/decreto-1458-10.04.1907.html
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



