Uma palavra que não se traduz: L’abbaglio
Cinema, história e o incômodo de um termo italiano
Vi L’Abbaglio durante o Festival de Cinema Italiano (2025) e comecei a escrever ainda ali, no calor da exibição. Mas algo no próprio título me incomodava – e esse incômodo pediu tempo. Não para rever o filme, mas para entender o peso da palavra que o sustenta.
O filme L’Abbaglio (2025), de Roberto Andò, propõe uma leitura crítica do Risorgimento, recusando a narrativa heróico-unitária e aproximando-se de interpretações que entendem o processo de unificação como uma construção política, mitológica e, em certa medida, violenta – sobretudo para o Sul italiano.
O título original, traduzido no Brasil como “A Ilusão”, carrega nuances mais densas que não são perceptíveis em português. “Abbaglio”remete ao erro provocado pelo deslumbramento, ao engano nascido da ofuscação – uma metáfora para um processo histórico frequentemente romantizado.
O Sul, o silêncio e o desencanto
A condução dramática do personagem Vincenzo Orsini (Toni Servillo) ecoa leituras que problematizam o Risorgimento a partir da experiência meridional. Sua observação de que “os sicilianos sofrem em silêncio” e “a melhor palavra é a que não se diz” dialoga com o diagnóstico de Pino Aprile em Terroni (2010), que evidencia como a unificação significou, para muitos habitantes do Mezzogiorno, não a libertação, mas a subjugação, a violência militar e o apagamento identitário.
No filme, o silêncio siciliano não é passividade — é memória histórica, cautela diante do poder central e percepção das assimetrias que a narrativa oficial costuma apagar.
Desertores, heróis e a fabricação da memória
A trajetória dos desertores que se tornam heróis — e depois, golpistas — funciona como alegoria da construção seletiva da memória nacional.
Ao mostrar que os papéis de “patriota” e “traidor” são historicamente móveis, o filme aproxima-se da abordagem de Lucy Riall (2007) e Christopher Duggan (2008) sobre a fabricação do heroísmo garibaldino como mito unificador.
Essa oscilação entre glória pública e precariedade moral posterior conecta-se também com os estudos de John Dickie (Blood Brotherhoods, 2011), que examina como redes de poder informal, violência, clientelismo e sobrevivência social atravessaram tanto a história do Sul quanto a formação do Estado italiano moderno.
Equívoco fundador
Quando Orsini murmura “Povera Italia… che abbaglio”, ele sintetiza o que a historiografia revisionista tem apontado: a Itália nasce entre o idealismo e o pragmatismo brutal, que se reveste de mito e manipulação, alternando entusiasmo e abandono, luz e cegueira.
O filme não demoniza o Risorgimento — mas o humaniza, e ao fazê-lo, desmonta a moldura heroica sem negar a profundidade da experiência histórica.
L’Abbaglio não foi o filme vencedor do festival e, talvez, exatamente por isso, ele tenha ficado comigo – nem sempre o filme que vence é o que permanece. Alguns ganham troféus e outros, ganham tempo. Diamanti fez jus ao prêmio, L’Abbaglio não brilhou, mas ofuscou, trouxe incômodo e questionamentos. Por fim, festivais premiam filmes. Já a reflexão, escolhe outros critérios.
Bibliografia Essencial
- Aprile, P. (2010). Terroni: Tutto quello che è stato fatto per che gli italiani del Sud diventassero meridionali.
- Duggan, C. (2008). The Force of Destiny: A History of Italy Since 1796.
- Riall, L. (2007). Garibaldi. L’invenzione di un eroe
- Dickie, J. (2011). Blood Brotherhoods: The Rise of the Italian Mafias.
- Andò, R. (2025). L’abbaglio [Filme].
Para aqueles que queiram se aprofundar neste capítulo da história italiana, reunimos uma linha do tempo e um glossário para situar o leitor entre o mito, a política e a memória do Risorgimento.
Linha do tempo — Risorgimento e o Sul
1796–1815 — Era Napoleônica
- Campanhas napoleônicas na Itália fragmentada
- Criação de repúblicas-satélite e circulação de ideias nacionalistas
- Sementes do discurso de unificação
1815 — Congresso de Viena
- Restauração da ordem pré-napoleônica
- Reposição de casas dinásticas (ex.: Bourbon no Sul)
- Repressão aos movimentos liberais
1820–1848 — Revoltas liberais e carbonárias
- Surtos revolucionários em várias regiões
- Surgimento da sociedade secreta Carbonaria (anti-absolutista)
1848 — “Primavera dos Povos”
- Revoluções europeias
- Primeira Guerra de Independência italiana
- Derrota do Piemonte–Sardenha pela Áustria
1859 — Segunda Guerra de Independência
- Aliança Piemonte + França
- Derrota austríaca na Lombardia
- Expansão do projeto piemontês liderado por Cavour
1860 — Expedição dos Mil (I Mille)
- Garibaldi e voluntários desembarcam em Marsala
- Conquista da Sicília e do Reino das Duas Sicílias
- Episódios de apoio e resistência popular (tema central de L’abbaglio)
1861 — Proclamação do Reino da Itália
- Vítor Emanuel II torna-se rei da Itália unificada (exceto Veneto, Roma e Trento)
- O Sul é integrado sob repressão militar e centralização piemontesa
1861–1865 — “Brigantaggio”
- Rebeliões camponesas e resistência armada no Mezzogiorno
- Repressão violenta pelo exército italiano
- Pino Aprile lê esse período como “colonização interna”
1866 — Terceira Guerra de Independência
- Veneto anexado
1870 — Tomada de Roma
- Fim dos Estados Pontifícios
- Roma torna-se capital da Itália
- Campanhas napoleônicas na Itália fragmentada
Glossário Essencial
Risorgimento
Movimento político, militar e cultural do século XIX que levou à unificação italiana. Narrado tradicionalmente como epopeia patriótica, revisto hoje sob lentes críticas, especialmente quanto aos impactos no Sul.
Mezzogiorno
Termo para designar o Sul da Itália continental + Sicília. Associado a desigualdades estruturais, estigmatização e construção narrativa de atraso — tema central em Terroni (Aprile).
Reino das Duas Sicílias
Estado pré-unificação que compreendia o Sul e a Sicília, governado pelos Bourbon. Sua queda marca o início da integração forçada do Sul ao Estado italiano.
Camicie Rosse (Camisas Vermelhas)
Voluntários liderados por Giuseppe Garibaldi na Expedição dos Mil. Símbolo do patriotismo e do mito garibaldino.
Brigantaggio
Revoltas e guerrilhas populares no Sul pós-unificação. Interpretadas durante décadas como banditismo; contemporaneamente vistas como resistência social e política.
Piemontização
Processo de impor leis, estrutura administrativa e modelo político do Piemonte ao restante da Itália — criticado por Aprile e por historiografia revisionista.
Carbonária
Sociedade secreta revolucionária antiabsolutista e anticlerical. Influenciou os movimentos revolucionários italianos do início do século XIX.
Garibaldismo
Mito heroico e civil religioso criado em torno de Garibaldi — mobilizado como símbolo nacional e objeto de crítica historiográfica (Riall, Dickie).
Sabóia (Casa de Savoia)
Dinastia do Reino do Piemonte–Sardenha que liderou a unificação e tornou-se Casa Real da Itália.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini Pesquisa histórica, narrativa e análise Vespucci — assistência editorial responsável (IA generativa utilizada eticamente, como ferramenta de apoio à organização e clareza do texto, sem invenção e sem plágio.)



