O príncipe herdeiro italiano quase aportou em Santos em 1924
Em 1924, o assunto do momento era os preparativos para a visita do príncipe Umberto di Savoia ao Brasil. O jovem herdeiro do trono italiano realizava uma das suas primeiras viagens de missão política no exterior como representante oficial da Itália. A viagem fazia parte do rigoroso treinamento do príncipe para o exercício de suas atribuições quando fosse coroado rei. A viagem lhe propiciaria experiência na área de formação militar, uma vez que a viagem seria a bordo dos navios de guerra da marinha italiana, os couraçados San Giorgio e San Marco.
Uma outra motivação para a viagem era a diplomacia, pois os países sul-americanos a serem visitados tinham numerosas comunidades de italianos e descendentes, principalmente na Argentina e no Brasil. Entretanto, essa viagem também fazia parte do plano político do Fascismo de atrair e aglutinar os italianos no exterior, aproximando-os à pátria-mãe e aos interesses do regime. A princípio, o roteiro do príncipe herdeiro previa as paradas da frota real nos portos brasileiros do Rio de Janeiro, sede do governo federal e de Santos, para uma visita à capital do estado, com sua numerosa presença de italianos e ítalo-descendentes, emigrados desde a segunda metade do século XIX.
Entretanto, em julho, quando os couraçados italianos já singravam os mares com a comitiva real, explodiu em São Paulo a revolta tenentista, num clima de guerra civil, de grande instabilidade e insegurança. De fato, na Revolta de 1924, conflito liderado por civis revolucionários e militares paulistas, que lutavam por mudanças sociais, econômicas e políticas no país e exigiam a renúncia do Presidente Arthur Bernardes representava um risco à visita do príncipe. Havia barricadas nas ruas, tanques de guerra em ação, tiroteios e investidas da força aérea bombardeando o centro da capital do estado. Os bairros operários do Brás, da Mooca, do Ipiranga e do Centro foram os mais atingidos, assim como também o bairro dos Campos Elísios, onde os revoltosos invadiram e sitiaram o Palácio Presidencial de São Paulo. O conflito não durou nem um mês até que a ordem fosse reestabelecida pelas forças legalista e as tropas federais.
A situação de insegurança no Brasil resultou na modificação do cronograma de viagem do Príncipe Umberto, em meio a um certo constrangimento diplomático, pois, apesar da grande autonomia dos couraçados italianos, era necessária uma parada para reabastecimento em algum porto brasileiro após a travessia do Atlântico, antes de seguirem para Montevideo e Uruguai. A escala no Rio de Janeiro, na época capital federal, não seria viável devido ao conflito com os paulistas e o porto de Santos, tinha se convertido no centro de operações da armada brasileira contra os revoltosos de São Paulo. Diante do impasse, o porto de Salvador foi o escolhido pela frota italiana.
Nessa primeira modificação no cronograma de viagem do príncipe, de Salvador a frota seguiria para Buenos Aires, onde permaneceria de 6 a 30 de agosto, visitando também o Chile nesse intervalo. Depois seguiria para Montevideo e então, para o Rio de Janeiro – e talvez o porto de Santos, caso as condições permitissem.
Como a situação de instabilidade e intranquilidade persistiram tanto no Rio como em São Paulo, ambas as paradas foram definitivamente excluídas do cronograma, que incluiu uma nova parada em Salvador, dessa vez, como visita oficial. Se a primeira visita à Salvador teve um caráter muito mais funcional que oficial, nessa segunda parada, ao retornar de Buenos Aires e Montevideo, a história foi outra. Foi enviado à Salvador o moderno couraçado brasileiro São Paulo, tendo a bordo o chefe da embaixada italiana no Brasil, o marechal Pietro Badoglio e o ministro de Relações Exteriores, Félix Pacheco.
Os registros da intensa programação oficial do príncipe Umberto na Bahia, certamente deixaram os conacionais de Santos com uma sensação de vazio. Mas não se deixaram abater! Por ocasião das festividades de “XX de Setembro”, um artigo no jornal A Tribuna, trouxe detalhes da programação especial promovida pela Società Italiana di Beneficenza pela data coincidir com a passagem da esquadra italiana que conduzia S.A.R. Príncipe Umberto, herdeiro da coroa, em águas brasileiras.
Os elegantes salões da sede da Società Italiana di Beneficenza deram espaço a apresentações teatrais, musicais e literárias, além de um grandioso baile. A programação cultural e artística destacava a participação da “prata da casa”, alunos, atores e cantores italianos e ítalo-descendentes da SIB, com a apresentação do “Centro Filodramatico Alessandro Manzoni”, sob a direção do ator E. Gallo, encenando as comédias “O Inimigo” e “Casemos a Sogra”, os cantores Elvira Russo e Luiz Cinquini, regidos pelo Prof. Buccini e diversos alunos da escola primária, que declamaram sonetos de conhecidos autores italianos.
Mais uma vez, a colônia italiana em Santos reforçou seus laços com a terra natal, ainda que o contexto político paulista desfavorável tivesse tirado de suas mãos a tão esperada visita do príncipe herdeiro!
Fontes consultadas:
Julho de 1924: a “Revolta Esquecida” na cidade de São Paulo. Disponível em http://www.revista.ueg.br/index.php/revistahistoria/article/download/12308/9089/48298
História da passagem do Príncipe Umberto di Savoia por Salvador (Bahia, 1924). Disponível no repositório da Universidade Federal da Bahia
Conflitos e atentados adiam a visita do príncipe italiano. Correio do Povo (Porto Alegre), 31/08/1924.
A Tribuna, edição 175, 1924
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



