O encouraçado Roma e a visita do Príncipe Aimone
Em setembro de 1920 a colônia italiana de Santos despertou em festa, pois havia chegado o grande dia, quando o navio da marinha real italiana atracaria em nosso porto, após escalas em Salvador e no Rio de Janeiro, trazendo a bordo um ilustre visitante. O couraçado permaneceria ancorado no porto de Santos por vários dias e haveria uma intensa agenda de solenidades, recepções e visitas.
A curiosidade pela vinda do grande navio de guerra italiano se justificava. De acordo com o Archivio Storico della Marina, a corazzata Roma, da classe Regina Elena começou a ser construído no “Aresenale di La Spezia” em setembro de 1903. Foi lançado ao mar em abril de 1907 e finalizado em 1908, quando foi colocado em serviço no dia 17 de dezembro.
Consta em sua ficha técnica que pertenceu à classe de navios encomendados pelo Ministro della Marina, Almirante Giovanni Bettòlo e construído segundo o projeto desenvolvido pelo General Cuniberi. Na sua época, foi considerado bem equilibrado em suas características, como menor tonelagem em relação à sua máxima capacidade de proteção e potência de armamento, o que o tornava apto para combater eficazmente os cruzadores blindados franceses e os velozes navios de guerra ingleses. A “corazzata” Roma participou na guerra ítalo-turca e também na I Guerra Mundial. Em setembro de 1927 foi aposentado e vendido para demolição, o que aconteceu em 1932.
Mas o navio era apenas um dos motivos para tamanho alvoroço da colônia italiana! Havia também um grande interesse pelo seu passageiro, o jovem príncipe Aimone di Savoia, segundo filho de Emanuele Filiberto, duca d’Aosta e da princesa Elena d’Orlèans, descendente direta do rei francês Louis-Philippe I. Nascido em Torino em 9 de março de 1900, formou-se na Accademia Navale em 1916 e durante a I Guerra Mundial, foi líder de um esquadrão de hidroaviões, foi condecorado por seus feitos com uma cruz de guerra, duas medalhas de bronze e uma de prata, todas de valor militar.
Ao comando do navio estava o capitão de mar e guerra Augusto Capon, um dos mais distintos oficiais da marinha italiana. Natural de Veneza, da classe de 1872, formou-se na Escola Naval em 1891. Integrou diversas comissões a bordo dos navios de guerra Dogali, Vesuvio, Etna, Strale e Sicilia. Comandou também vários torpedeiros e em 1910 foi promovido à capitão de corveta. Comandou o contratorpedeiro Indomito durante a guerra ítalo-turca. Foi também imediato no Leonardo da Vinci e comandante do explorador G.Pepe. Foi promovido a capitão de mar e guerra em 1917 e graças aos seus feitos, recebeu relevantes condecorações, conferidas por sua majestade Vittorio Emanuele III e foi a primeira escolha, por suas capacidades técnicas e qualidades diplomáticas, para a honrosa missão em água brasileiras, trazendo a bordo o príncipe Aimone.
Naquela manhã de setembro de 1920 o burburinho da multidão era indescritível para a chegada do couraçado ao porto de Santos. Assim que o navio italiano foi avistado pelo posto semafórico do Monte Serrat, cruzando o farol da ilha da Moela, houve uma salva de tiros e, ao ultrapassar a ilha das Palmas, a multidão que o aguardava na Ponta da Praia, explodiu em empolgação e festa.
Na estação do Valongo, representantes ilustres da colônia italiana santista, como o vice-cônsul Ottavio Gloria e os dirigentes da Società Italiana di Beneficenza, Cavaleiro Augusto Marinangeli (presidente) e o Sr. Carmine Neri (conselheiro), aguardavam a chegada do Cônsul Geral da Itália e de outras autoridades e reservistas italianos, vindos especialmente para a recepção aos oficiais e à tripulação do couraçado. Dentre as autoridades nacionais, havia o Capitão Marcilio Franco, representando o presidente do estado de São Paulo, Sr. Washington Luiz e o prefeito de Santos, o Coronel Joaquim Montenegro.
Ao final da tarde, o príncipe e oficiais do Roma desembarcaram e seguiram de carro para a elegante sede da Società Italiana di Beneficenza, onde além dos seus dirigentes, professores, sócios e alunos, também recepcionaram os visitantes os representantes consulares do Uruguai, do Paraguai, da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Bélgica e da Noruega e outras autoridades.
Os ilustres convidados foram levados ao salão nobre da SIB e acomodados à mesa em lugares de honra para a sessão solene, em que discursaram o Conde Ottavio Gloria, vice-cônsul italiano em Santos, o Cav. Augusto Marinangeli e também o comandante Capon, oficial do couraçado Roma. Após as solenidades, a comitiva seguiu para o Hotel Parque Balneário, onde tanto o príncipe como a oficialidade do Roma permaneceram hospedados.
No dia seguinte, a Società Italiana di Beneficenza e a municipalidade santista ofereceram ao príncipe Aimone a aos oficiais do Roma um elegante banquete no salão nobre do Parque Balneário, recepcionados pelas autoridades locais, representantes consulares, imprensa e pelas comitivas italianas.
A visita oficial do príncipe ao Brasil teve seu ponto alto durante a sua estadia em Santos e São Paulo. Ao longo da semana que o Roma permaneceu ancorado em Santos, o príncipe, os oficiais e os marinheiros seguiram para a capital. Em São Paulo, o príncipe Aimone, visitou o Hospital Umberto I fundado em 1904 por Francesco Matarazzo, almoçou na casa dos Matarazzo na Av. Paulista e também sobrevoou a cidade, ele mesmo pilotando um pequeno avião. Os marinheiros foram recepcionados na estação da luz, passearam pela cidade e por pontos turísticos, como o Museu Ipiranga e foram dormiram na Hospedaria dos Imigrantes, no Brás.
Como bem descrito na matéria do jornal A Tribuna, aqui em Santos e em São Paulo “os laços que nos prendem à grande pátria italiana não se apresentam tecidos simplesmente pela cortesia e simpatia que se inspiram mutuamente povos orientados pelo mesmo fanal do progresso e de sentimentos. Aqui, mais do que isso, a nação italiana vive pelo sangue dos seus filhos cruzado ao nosso em vastas proporções, prolonga-se na vida do Estado pelos gostos e costumes, influindo poderosamente nos surtos de todas as nossas manifestações de progresso, numa afinidade já agora indestrutível, de princípios e ideias”.
Fontes consultadas:
A Fraternização de dois povos, A Tribuna, edições 169 e 170 (1920)
Navi di Guerra. RN Roma 1907. Archivio Navi da Guerra.
Aimone, conte di Savoia. Dizionario Biografico degli Italiani. Disponível em http://www.treccani.it/enciclopedia/conte-di-savoia-aimone_(Dizionario-Bibliografico)/
Para maiores informações sobre o Capitão de Mar e Guerra, Augusto Capon, sugerimos o link abaixo. A sua carreira militar foi riquíssima e o fim da sua vida, trágico, na câmara de gás de Auschwitz, em 23 de outubro de 1943.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



