Um feitor italiano no Engenho dos Erasmos
Os irmãos Adorno não foram os únicos itálicos a viver em Santos no século XVI. A história do Engenho São Jorge dos Erasmos se mescla com a biografia de um misterioso itálico: Giovanni Battista Maglio, ou “João Batista Malho”.
Giovanni foi um feitor italiano que atuou no Engenho São Jorge dos Erasmos por décadas, durante o século XVI. Maglio assumiu a função de feitor, provavelmente, por volta de 1556, representando os interesses dos proprietários europeus no Brasil. Sua gestão, apesar de longa, foi marcada por controvérsias.
Desconhecemos o momento em que Maglio se transferiu para o Brasil ou para a ilha vicentina, entretanto, era corriqueira a vinda de europeus, principalmente portugueses, mas também italianos, em busca de oportunidades. Provavelmente, aqui chegou já contratado como feitor. Sua atuação no Engenho dos Erasmos foi marcada por conflitos e culminou pela tentativa fraudulenta de adquirir o empreendimento por um valor irrisório, o que levou a uma disputa judicial e terminou com o cancelamento da negociação.
Para entendermos o contexto em que se insere Giovanni Battista Maglio, há de se resgatar a trajetória do próprio engenho no cenário do então povoado da Capitania de São Vicente.
A construção do engenho foi iniciada em 1534, a mando do donatário da Capitania, Martim Afonso de Souza. A escolha do local de implantação do engenho foi cuidadosamente estudada, no centro da ilha de São Vicente, com a intenção de estimular a ampliação da cultura canavieira e a dinamização econômica. O engenho foi implantado no alto, sobre uma plataforma e próximo a ele passava um riacho, pelo qual eram transportados as canas e o melaço. A presença do riacho também era um indício da força motriz do engenho, a hidráulica. Entretanto, uma parte de mó de pedra que resistiu ao tempo e foi contemporaneamente localizado em escavações arqueológicas, leva a crer que talvez a moenda fosse movida por tração animal.
Representação artística do engenho sobre fotografia atual. Imagem disponível no site do Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge (veja em referências)
Martim Afonso tinha como sócios no empreendimento Johan Van Hielst (“João Vaniste”), Francisco Lobo, Pero Lopes de Souza e Vicente Gonçalves, grupo denominado como os “Armadores do Trato”. A sociedade se desfez depois de algum tempo e o único a permanecer foi Van Hielst.
Erasmos Schetz, natural da Antuérpia, adquiriu o engenho na década de 1540 e o empreendimento passou a ser gerido à distância pela sociedade “Erasmos Schetz & Filhos”, uma vez que nem Erasmos ou seus descendentes tenham pisado em solo americano. A aquisição foi intermediada por Van Hielst.
Erasmos já era parceiro comercial de Portugal na Europa, não só no mercado açucareiro. Também tinha ligações comerciais com italianos, franceses, holandeses e alemães. A família prosperava com seus investimentos. Após a morte de Erasmos, seu filho Gaspar assumiu o controle dos empreendimentos familiares e após a morte deste, em 1580, seus filhos herdaram o legado. Infelizmente, a família não manteve a prosperidade financeira e teve início o desmantelamento dos bens.
Giovanni Battista Maglio foi feitor no Engenho dos Erasmos por cerca de 36 anos, talvez desde a sua aquisição pelos Schetz. Foi o administrador do engenho e o homem de confiança da família. Como feitor assalariado, ele deveria zelar pela manutenção da maquinaria e das construções, zelar e fiscalizar os trabalhadores e escravos e também prover e abastecer em mantimentos e insumos. Também era sua função comercializar e enviar para a Europa a produção. Ironicamente, cabia ao feitor proteger a propriedade de invasores, posseiros e grileiros.
Eram muitas as atribuições e responsabilidades de Giovanni Battista, mas também não era fiscalizado de perto por seus contratantes. A tentação de priorizar seus interesses pessoais era grande, pois ao mesmo tempo em que gozava de uma posição de destaque e influência na sociedade local, o feitor não tinha qualquer participação nos lucros do engenho.
Em algum momento, Maglio foi sucedido na função por Paulo Werner. Frente a suspeita dos herdeiros de Erasmos Schetz de má fé de Werner na condução dos interesses do engenho, nomearam Jerônimo Maya procurador para que vendesse em definitivo a propriedade. O engenho foi então adquirido por Giovanni Battista Maglio, como dissemos antes, por um valor irrisório e fraudulento e a transação foi desfeita. Após esse episódio, não encontramos mais nenhum indício do paradeiro de Maglio.
Os Schetz mantiveram a propriedade do engenho até o início do século XVII, mas os problemas se acumulavam. Em janeiro de 1615, por exemplo, o engenho foi incendiado pelos mosqueteiros da frota militar-mercantil sob o comando do almirante Joris van Spilbergen, numa retaliação por terem sido impedidos de se abastecer e mercanejar na vila.
Os frequentes ataques de corsários à vila vicentina e o declínio financeiro da família Schetz na Europa, resultaram na venda definitiva do engenho na segunda metade do século XVII. O engenho teve vários proprietários desde então. Sabe-se que até 1810 ainda estava em funcionamento, com mão de obra escrava. Ao longo da década de 1880, o engenho declinou e suas ruinas, que sequer revelavam o seu glorioso passado, foram adquiridas em 1943, por Otavio Ribeiro de Araujo.
Após esta última aquisição, as ruínas do antigo engenho por pouco não desapareceram em definitivo, mesmo após ter sido tombada em 1963 como área de preservação histórica. Atualmente, o patrimônio encontra-se sob responsabilidade da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP.
Por mais incompleta, imprecisa e conturbada que seja a biografia de Giovanni Battista Maglio, sua presença na Capitania de São Vicente, muda o nosso olhar, como ítalo-descendentes, para um símbolo tão português como o Engenho dos Erasmos, e nos conecta em definitivo com esse solo, que poucos séculos depois, seria o destino de milhões de italianos, em êxodo, fugindo da pobreza e, mais uma vez, em busca de oportunidades em terras ultramarinas.
Referências:
Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos. O que foi este lugar? Disponível em http://www.engenho.prceu.usp.br/o-que-foi-este-lugar/ consultado em 20/04/2025.
Erasmus II Schetz, por Lambert Zutman dit Suavius. Disponível em https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=56314842 consultado em 20/04/2025
Leitura recomendada
CORDEIRO, Silvio Luiz – A paisagem histórica do Engenho São Jorge dos Erasmos. O vídeo como instrumento educativo na arqueologia do monumento quinhentista. Dissertação de mestrado/USP
GEAMPAULO, Victor Lordani – Engenho São Jorge dos Erasmos: aproximações acerca da morte e da vida no complexo açucareiro vicentino (séculos XVI-XVIII) – Dissertação de mestrado/USP
MEURS, Paul – Engenho dos Erasmos. Vestígios de uma primeira multinacional. Revista Arquitextos. (2006). Disponível em https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.070/369/pt_BR consultada em 20/04/2025.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



