Entre a Epifania e o Fascio: a invenção pública da Befana em Santos
O seis de janeiro, segundo a tradição cristã, corresponde ao dia em que os Reis Magos chegaram até o Jesus Menino, nascido em Belém, e marca o fim das festividades natalinas. É o período em que a árvore de Natal e os enfeites são recolhidos, e o presépio, desmontado com cuidado. Na Itália, a data é celebrada como o feriado da Epifania e, simultaneamente, como o dia da Befana – duas dimensões simbólicas que, embora distintas, se entrelaçam ao longo do tempo.
Epifania, no contexto religioso, significa revelação. Jesus se revela aos Reis Magos, assim como se revela posteriormente nas bodas de Caná e no batismo por João Batista. Já em um contexto anterior à cristianização, a Epifania remete a rituais ligados ao ciclo agrícola e ao solstício de inverno. Na Roma Antiga, acreditava-se que, após doze dias do solstício, a deusa Diana sobrevoava os campos para restaurar sua fertilidade, marcando simbolicamente o renascimento da natureza. Assim como ocorreu com o Dies Solis Invicti Nati, incorporado pela Igreja como data do nascimento de Cristo, também a Epifania foi progressivamente ressignificada no calendário cristão.
A figura da Befana transita entre esses dois universos simbólicos. Seu nome pode ser entendido como uma corruptela popular de Epifania – Pifania e depois Befana – mas também está associada à lenda da senhora que, ao receber os Reis Magos em sua casa, recusou-se inicialmente a acompanhá-los em sua viagem. Arrependida, teria saído posteriormente à procura do Menino Jesus, levando consigo presentes que passou a distribuir às crianças que encontrava pelo caminho.
Essa narrativa, profundamente enraizada no folclore italiano, carrega ambiguidades importantes: a Befana é ao mesmo tempo maternal e severa, generosa e julgadora, transitando entre o sagrado e o profano. Tradicionalmente, sua presença se manifesta no espaço doméstico e comunitário, especialmente por meio de práticas familiares, canções, pequenas oferendas e rituais infantis.
No contexto santista, entretanto, a trajetória da Befana assume contornos particulares. A pesquisa sistemática em jornais locais, retrocedendo até o final do século XIX, não identificou as comemorações públicas da Befana em Santos antes da década de 1930. Esse silêncio documental, longe de ser irrelevante, indica que a figura não ocupava o espaço público da cidade, mesmo em um território marcado pela intensa presença de imigrantes italianos desde o final do Oitocentos.
É somente nos anos 1930 que a Befana passa a aparecer na imprensa santista – e sua emergência ocorre já vinculada a um aparato institucional bem definido. Os primeiros registros localizam as comemorações na Casa dos Italianos e, posteriormente, na Casa del Fascio e no Dopolavoro, sob a organização do Fascio Feminino, com apoio do Vice-Consulado italiano. A celebração assume então a forma de evento público, com distribuição de brinquedos e presentes a crianças previamente cadastradas como “necessitadas”, inserindo-se em um conjunto mais amplo de práticas de assistência social e sociabilidade política promovidas pelo regime fascista no exterior.
Nesse contexto, a Befana deixa de ser apenas uma personagem do imaginário popular para se tornar um instrumento de pedagogia política. A festa articula infância, cuidado, pertencimento nacional e lealdade simbólica, mobilizando afetos e tradições em favor de um projeto ideológico transnacional. Não se trata, portanto, da simples preservação de um costume trazido pelos imigrantes, mas da sua reorganização e institucionalização sob a égide do Estado fascista italiano.
A Befana na imprensa santista: 1931 e 1938
Os dois primeiros registros identificados na imprensa santista sobre a comemoração da Befana datam de 1931 e 1938, anos particularmente significativos para a história das associações italianas na cidade. Longe de constituírem simples notas festivas, esses recortes revelam a progressiva institucionalização da tradição sob a órbita do fascismo italiano no exterior.
O recorte de 1931 explicita essa institucionalização. A comemoração da Befana acontece na Casa del Fascio e Dopolavoro, com a participação direta do Vice-Consulado italiano e da Secretaria do Fascio, além da convocação pública de senhoras, doadores e connazionali. As crianças beneficiadas são previamente cadastradas, reforçando o caráter seletivo e organizado da assistência. A festa, assim, deixa de ser apenas um gesto simbólico e passa a integrar um sistema mais amplo de sociabilidade política, no qual lazer, infância e identidade nacional são cuidadosamente articulados.
Já o recorte de 1938 informa claramente a realização de uma “Befana fascista” na Casa dos Italianos, organizada pela seção das Obras de Assistência e dirigida pelo Fascio Feminino. A escolha das palavras não é casual: a festa é explicitamente qualificada como fascista, e sua organização está vinculada a estruturas formais do partido, evidenciando o uso da assistência social como estratégia de mobilização e pertencimento. A distribuição de presentes às crianças aparece associada à ideia de cuidado e proteção, mas também à hierarquia e ao enquadramento institucional.
A cenografia da festa, registrada fotográficamente pela imprensa em 1938, reforça o caráter institucional da celebração, articulando elementos religiosos (presépio), símbolos nacionais e referências explícitas ao regime, em consonância com a denominação adotada nos próprios impressos da época.
A distância temporal entre os dois recortes não indica continuidade pacífica, mas transformação e radicalização. Entre 1931 e 1938, a cidade de Santos assistiu ao acirramento das tensões no interior da Società Italiana di Beneficenza, marcada por disputas entre apoiadores e opositores do regime fascista. Esses embates culminaram, pouco depois, na intervenção estatal que levou ao fechamento da instituição, com a apreensão e destruição de documentos. Nesse contexto de fragmentação associativa e vigilância política, a centralidade assumida pela Casa del Fascio e pelo Dopolavoro como espaços de celebração da Befana não é fortuita: ela reflete o deslocamento das práticas culturais para estruturas diretamente controladas pelo fascismo, em detrimento das antigas formas de sociabilidade mutualista.
A análise da emergência pública da Befana em Santos permite compreender como tradições culturais, ao atravessarem contextos migratórios e políticos específicos, podem ser ressignificadas e reorganizadas. No caso santista, a ausência de registros anteriores e a súbita aparição da Befana associada a instituições fascistas indicam que sua visibilidade pública não resultou de uma continuidade espontânea das práticas imigrantes, mas de um processo de institucionalização conduzido por estruturas formais do Estado italiano no exterior.
Isso não implica em negar a existência de vivências privadas, afetivas ou familiares relacionadas à Befana entre imigrantes e seus descendentes. Pelo contrário, reforça a necessidade de distinguir entre a tradição vivida no espaço doméstico e aquela que se torna pública, organizada e registrada. A Befana que aparece na imprensa santista nos anos 1930 é, sobretudo, uma tradição mediada por interesses políticos e por um contexto associativo marcado por conflitos, rupturas e silenciamentos documentais.
Reconhecer esse recurso não significa esgotar o tema, mas situá-lo com precisão. A Befana em Santos, tal como se apresenta nas fontes disponíveis, revela menos sobre uma herança cultural contínua e mais sobre mecanismos pelos quais a cultura pode ser mobilizada, disciplinada e tornada visível em determinados momentos históricos. Entre a Epifania e o Fascio, a tradição não desaparece – mas se transforma, deixando rastros que exigem leitura atenta, crítica e historicamente situada.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini Pesquisa histórica, narrativa e análise Vespucci — assistência editorial responsável (IA generativa utilizada eticamente, como ferramenta de apoio à organização e clareza do texto, sem invenção e sem plágio.)



