A breve sobrevida da Banca Italiana di Sconto em Santos
Quase no raiar da década de 1920, quando a praça de Santos pulsava ao ritmo do café e dos navios, uma notícia despontou no horizonte como uma estrela: a Banca Italiana di Sconto, com sede em Roma, aportaria na cidade. Os jornais anunciaram não apenas uma filial — mas um canal direto de finanças, empreendimentos e ambições entre Brasil e Itália. A instituição chegava cercada de nomes sonoros: Guglielmo Marconi figurava como presidente do conselho e Angelo Pagliani, administrador delegado. No Brasil, o comando executivo trazia Vito Celi e, em São Paulo, uma diretoria que alinhava Attilio Alessandrini, Alfredo Vaccari e Ercole Cocito, além de procuradores e um conselho consultivo de peso, com Alessandro Siciliano, Paulo Prado e Rodolpho Crespi. Em Santos, o dia a dia ficaria nas mãos de Américo Guedes da Costa, George Gomes e Rubens S. Carvalho — nomes conhecidos nos meios comerciais.
Como quem lança amarras de boa vizinhança, a Banca Italiana di Sconto marcou a sua chegada com um gesto filantrópico: doações às instituições assistenciais paulistas — de asilos a creches —, uma prática de urbanidade financeira que era parte da coreografia de legitimação dos grandes bancos estrangeiros.
A filial paulistana foi inaugurada oficialmente em 20 de setembro de 1919, na rua 15 de Novembro, 40 e foi celebrada como um marco para “intensificar as relações comerciais entre Brasil e Itália”, com ênfase explícita no incremento das exportações. A data não foi escolhida ao acaso, correspondia ao feriado italiano em memória da Breccia di Porta Pia (1870), quando as tropas do Reino da Itália entraram em Roma, consolidando a unificação. De maneira simbólica, a presença da Banca Italiana di Sconto no Brasil também seria essa ponte entre a nação unificada e em reconstrução no pós-guerra com a pujança do mercado brasileiro em franco desenvolvimento.
O entusiasmo não era apenas retórico. Em março de 1920, consolidou-se um acordo ítalo-brasileiro de largo alcance: o Banco do Brasil abriu ao governo italiano uma linha de crédito de até 100 mil contos de réis para compra de gêneros brasileiros — café, cacau, algodão, borracha, carnes, açúcar — por meio de um consórcio que envolvia Banca d’Italia, Banco di Napoli, Banco di Sicilia, Banca Commerciale Italiana, Banca Italiana di Sconto e Banco di Roma. No papel, desenha-se um corredor atlântico por onde circulariam mercadorias, letras de câmbio e esperanças de reabastecimento europeu no pós-guerra.
A imprensa local descrevia a instituição bancária como “digna de máxima confiança”, e os anúncios publicitários reforçam a imagem de uma casa sólida, correspondente oficial do Tesouro italiano, apta a realizar “todas as operações bancárias”, captar depósitos, manter contas em réis e intermediar subscrições do “Novo Empréstimo Italiano 5%”.
Os tablóides também chegaram a aventar — problematizando — que a abertura comercial facilitaria o reavivamento da emigração italiana para o Brasil, associando “mão de obra de confiança” ao motor agrícola do café. É um discurso de época, que precisa ser lido hoje com o devido distanciamento crítico: o mesmo editorial que saúda o crédito naturaliza hierarquias e estereótipos sobre trabalhadores de outras origens, revelando os limites sociais da “modernização”.
Nesse meio tempo, a sucursal santista primeiro se instalou em uma sede provisória, na rua 11 de junho, 8 – lembrando que atualmente, essa rua se chama Riachuelo. A sua sede definitiva estava em construção ao lado, no imóvel de esquina das ruas XV de Novembro e 11 de junho.
Em Santos, o canteiro da sede própria se superava em estilo e arte sob a batuta do engenheiro Eduardo Loschi. Os periódicos antecipavam os detalhes: portas-janelas avarandadas, dois andares com vocação comercial, uma “obra de arte” que “realça” o quarteirão — e que já nascia com andares superiores destinados a escritórios para locação, combinando a função bancária ao investimento imobiliário típico da época.
Mas a paisagem do trabalho urbano não é linear. Em 1920, greves da construção civil sacudiram o canteiro santista; a polícia interveio com mão pesada; operários foram arbitrariamente detidos, inclusive na obra da Banca Italiana di Sconto.
Ainda que com contratempos, as obras avançaram e a filial santista finalmente se instalou no novo prédio. Semanas antes, Santos tinha vivido o burburinho da chegada da corazzata Roma, trazendo à bordo o Príncipe Aimone e centenas de belos jovens oficiais da marinha, com uma infindável agenda de festas, banquetes e visitas oficiais. Como que se recuperando de uma ressaca, a inauguração da Banca foi discreta. O diretor local, Dr. Giuseppe Schizzi recebia os cumprimentos e o vice-diretor, Sr. Rubens de Carvalho conduzia os convidados ao piso superior. Havia nítido orgulho e entusiasmo em ocupar a nova sede, magnífica, imponente por fora e de grande beleza, austeridade e comodidade por dentro.
A maré, contudo, começou a virar. Entre 1921 e o início de 1922, boatos sobre a saúde financeira da Banca Italiana di Sconto em Roma ganham as colunas; a casa matriz requereu moratória; falava-se em corrida de saques — “mais de seis mil contos em um só dia”, segundo um relato —; tribunais italianos concediam medidas e agências eram fechadas na Itália sob proteção policial. No Brasil, o consulado buscava instruções. A praça reagia: jornais discutiam competências legais, destacando que, embora sujeitas à matriz italiana, as filiais operavam sob leis brasileiras; multiplicavam-se advertências contra o pânico e, simultaneamente, reclamações de prejuízos.
Em Santos, o gerente Giuseppe Schizzi dava declarações tranquilizadoras, pois a reabertura parcial em março de 1922, transcorreu sem problemas e com pouco impacto local, assegurando que filial santista mantinha um “saldo positivo mesmo após quitar credores”.
A crise continuou a se agravar e em maio de 1922, chegou a ordem de encerramento das filiais brasileiras, com liquidação assistida e transferência de pendências à sucursal do Banco Francês e Italiano. No ano seguinte, a Embaixada da Itália publicou um edital convocando credores a apresentarem requerimentos ao passivo da Banca Italiana di Sconto em liquidação — um rito jurídico que fechou o circuito daquele corredor atlântico que se abriu com pompa e se concluiu com papel timbrado e prazos fatais.
A imprensa, voz e termômetro da época, oscilava entre a crítica e a defesa. Havia quem elogiasse a energia do governo italiano ao sequestrar bens de administradores para resguardar reputações; há quem acusasse o privilégio de acionistas seletos e “avisos prévios” a círculos diplomáticos. Anos depois, em 1930, surgiram testemunhos sustentando que, ao fim e ao cabo, não teriam restado perdas aos depositantes brasileiros, pois o governo da Itália teria honrado os compromissos — argumento que, entretanto, não apagou a memória social da angústia da corrida bancária.
Se por um lado a vida corporativa da BIS foi breve, o mesmo não se pode dizer do edifício. O antigo “Palácio Banca Italiana di Sconto”, na Rua XV de Novembro, 139–141, sobreviveu, testemunhando a maré que recuou. Passou por um período de decadência e abandono mas viu sua sorte mudar décadas mais tarde, nos anos 1990, quando o imóvel — então pertencente ao Banco do Brasil — foi licitado e adquirido por Omar Laino, com a firme intenção de restaurá-lo e de ali instalar a nova sede da sua construtora. Foram 42 meses de trabalho e o projeto devolveu a dignidade e o esplendor ao conjunto, mantendo a linguagem fiorentina da década de 1920 e atualizando infraestruturas. O grande destaque é o hall principal, com o lustre monumental, os vitrais e vinte e quatro molduras com os brasões das províncias italianas, restauradas com três mil folhas de ouro. Em 1998, o trabalho recebeu o Prêmio Master Imobiliário. É como se, no silêncio do saguão, a memória da banca — sua promessa de ponte entre duas margens — persistisse no brilho mineral, apesar da ressaca financeira que a levou.
Linha do tempo — Banca Italiana di Sconto
- Set–1919 — Inauguração oficial em São Paulo (Rua 15 de Novembro, 40); anúncio das filiais (incluindo Santos). Em Santos, funcionamento provisório na Rua 11 de Junho, 8; endereço definitivo: Rua 15 de Novembro, 139–141.
- Set–Out–1919 — Anúncios e comunicados: operação em todas as modalidades bancárias; correspondência do Tesouro italiano; subscrições do Empréstimo Italiano 5%.
- 1919–1920 — Projeto e obras da sede em Santos sob Eduardo Loschi; greves da construção civil e intervenções policiais nos canteiros.
- Mar–1920 — Convênio ítalo-brasileiro: Banco do Brasil abre linha de crédito (até 100 mil contos) ao governo italiano para compras de produtos brasileiros; consórcio inclui a BIS e outros grandes bancos da Itália.
- 1921 (2º semestre) — Boatos e moratória na Itália; fechamento de agências sob proteção; no Brasil, comunicados consulares e cautela nas praças.
- Jan–Mar–1922 — Discussões jurídicas sobre moratória/competência; reabertura parcial da BIS em Santos; declarações do gerente Giuseppe Schizzi de que a filial quitaria credores com saldo positivo.
- Mai–1922 — Encerramento formal das atividades da Banca Italiana di Sconto por determinação dos administradores judiciais na Itália; liquidação assistida pelo Banco Francês e Italiano; serviços de cobrança da carteira permanecem por um período.
- Out–Dez–1923 — Edital da Embaixada da Itália convoca credores a habilitação no passivo da BIS em liquidação (prazo até 29 de dezembro de 1923).
- 1930 — Registros tardios defendem que não houve prejuízo final a depositantes brasileiros, com cobertura italiana.
- 1994–1998 — Aquisição do imóvel (ex-Banco do Brasil) por Omar Laino; restauro de 42 meses;
- 1998 — Prêmio Master Imobiliário ao “Palácio Banca Italiana di Sconto” restaurado.
Dados da pesquisa:
O texto foi composto a partir das notas de jornais mapeados no período de 1919 a 1998, incluindo A Tribuna, Correio Paulistano, Gazeta do Povo, A Gazeta, O Combate, Revista de Commercio e Industria, A Cigarra e Il Pasquino, respeitando datas, endereços, cargos e eventos (obras, greves, convênios, moratória, liquidação).
Enviado por:
Giany Gonze Tellini Pesquisa histórica, narrativa e análise Vespucci — assistência editorial responsável (IA generativa utilizada eticamente, como ferramenta de apoio à organização e clareza do texto, sem invenção e sem plágio.)



