Bartolomeu de Gusmão e a disputa pela memória no Largo do Rosário
Em junho de 1922, uma publicação de capa denunciava uma situação que surpreendeu a cidade de Santos. A administração municipal pretendia remover do Largo do Rosário a herma de Xavier da Silveira para dar lugar ao monumento a Bartolomeu de Gusmão — sem consulta pública e sem que se tivesse clareza sobre os fundamentos legais da decisão.
Até então, sabia-se que o monumento dedicado ao “Padre Voador” teria como destino a Praça Mauá. A mudança de planos, silenciosa, causou estranhamento. Para muitos, desalojar a homenagem ao jovem poeta santista não era apenas uma questão urbanística: parecia um gesto de desvalorização, como se sua memória já não fosse digna de ocupar aquele espaço central da cidade.
Na mesma edição, informava-se que o vice-prefeito em exercício levara à Câmara a proposta de remoção, sob alegações de ordem estética e necessidade de espaço. Colocada em votação, a medida foi aprovada por unanimidade — inclusive com o voto do comendador Manoel Alfaya Rodrigues, que poucos anos antes estivera diretamente envolvido nas iniciativas que garantiram a homenagem a Xavier da Silveira.
A escolha estava feita. E, com ela, redefinia-se não apenas a paisagem do Largo do Rosário, mas também a hierarquia das memórias ali representadas.
No contexto das comemorações do centenário da Independência do Brasil, a cidade decidiu inscrever de forma mais enfática a memória de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, santista de nascimento e associado à invenção do aeróstato. Coube ao escultor italiano Lorenzo Massa a concepção e execução do monumento que passaria a ocupar aquele espaço.
A pedra fundamental foi lançada em 13 de julho de 1922, em cerimônia solene que contou com a presença dos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, então celebrados pela recente travessia aérea do Atlântico Sul. A inauguração ocorreu poucos meses depois, em 7 de setembro do mesmo ano. A urgência imposta pela data, no entanto, fez com que o monumento fosse entregue incompleto: uma greve na Itália atrasou o envio dos postes e candelabros de bronze que integravam o projeto original, instalados apenas no ano seguinte.
Idealizado por Massa, o conjunto foi concebido como uma narrativa visual da história da navegação aérea. O pedestal reunia referências ao Terreiro do Paço, ao Palácio da Ribeira e à Casa da Índia, em Lisboa, além de evocações do Trocadéro e da Torre Eiffel, em Paris, articulando a trajetória de Gusmão com marcos simbólicos da conquista dos ares. Também estavam presentes as efígies de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, conectando o passado experimental do século XVIII à aviação moderna.
O embasamento circular, por sua vez, era composto por um piso decorado com representações dos primeiros balões, integrando o projeto original do escultor. Mais do que um suporte, esse elemento fazia parte da própria obra, reforçando a unidade entre escultura, base e espaço urbano.
Mas, se a instalação do monumento implicou a substituição de uma memória por outra, o tempo trataria de impor novas camadas de transformação.
Décadas depois, intervenções urbanísticas na Praça Rui Barbosa alterariam significativamente o conjunto. Em 1969, um projeto de reurbanização previa a substituição do piso decorado e a remoção dos quatro postes de bronze, ornados com esfinges aladas e encimados por lamparinas com o aeróstato ao centro — elementos que simbolizavam os mistérios da natureza desvendados pela luz da ciência. Nem todas essas mudanças foram integralmente executadas, mas o monumento não saiu ileso.
Nos anos seguintes, novas alterações se acumularam: árvores foram removidas, o passeio foi alargado e partes do conjunto sofreram descaracterização. Mesmo quando restaurado, o cuidado com a integridade da obra mostrou-se limitado. Em 1987, duas das esfinges desaparecidas foram recolocadas, mas já sem suas asas — uma recomposição incompleta que evidencia as dificuldades de preservação do monumento.
A trajetória de Bartolomeu Lourenço de Gusmão ajuda a compreender a força simbólica dessa homenagem. Nascido em Santos no final do século XVII, estudou na Bahia e em Coimbra, onde obteve o grau de doutor em Cânones. Próximo à corte de D. João V, recebeu honrarias e se destacou por suas experiências com balões aerostáticos, que o consagraram como precursor da navegação aérea. Sua vida, no entanto, foi breve: morreu na Espanha, após um percurso marcado por viagens, estudos e missões diplomáticas.
Séculos depois, sua memória foi escolhida para ocupar um dos espaços mais centrais da cidade. Mas essa escolha não se deu sem tensões — nem permaneceu intacta ao longo do tempo.
O monumento que hoje se ergue na Praça Rui Barbosa é, ao mesmo tempo, resultado e testemunho dessas camadas. Ele marca o gesto de uma cidade que, em 1922, decidiu substituir uma homenagem recente por outra considerada mais representativa. E revela também como, ao longo das décadas, a própria materialidade dessa escolha foi sendo alterada, mutilada e parcialmente esquecida.
Entre substituições e permanências, o monumento a Bartolomeu de Gusmão não fala apenas do “Padre Voador” ou da mão do escultor italiano que o concebeu. Ele fala, sobretudo, das escolhas que moldam a memória urbana — e das formas pelas quais a cidade decide, continuamente, o que deve permanecer visível em sua paisagem.
Sugestões de leitura
Monumento a Bartolomeu de Gusmão, a justa homenagem ao “Padre Voador”, com síntese histórica sobre a inauguração do monumento e rico material fotográfico.
https://memoriasantista.com.br/monumento-a-bartolomeu-de-gusmao-a-justa-homenagem-ao-padre-voador/
Esculturas Urbanas – Monumentos selecionados (2008), livro com levantamento da presença escultórica no espaço urbano de Santos.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini Pesquisa histórica, narrativa e análise Vespucci — assistência editorial responsável (IA generativa utilizada eticamente, como ferramenta de apoio à organização e clareza do texto, sem invenção e sem plágio.)



