Piratas, imigrantes e a Fortaleza de Santo Amaro
Em 1583, o navegador inglês Edward Fenton chegou ao porto de Santos com dois galeões lotados de mercadorias e com o pretexto de escambo com os locais. Porém, a esquadra de Diogo Flores Valdez, que a mando da coroa espanhola confrontava navios inimigos na costa da América portuguesa, os expulsou com um intenso combate, em que os canhões dispararam por quase toda a noite. Os galeões ingleses fugiram e a nau “Santa Maria de Begónia”, da esquadra espanhola, sofreu graves avarias e afundou. Após esse incidente, Valdez determinou a construção da Fortaleza da Barra Grande para proteger a entrada do canal do estuário em direção à Santos.
A configuração primitiva da fortaleza é desconhecida, mas parece que a primeira edificação foi provisória, armada com os canhões recuperados da nau afundada. Posteriormente, a planta foi substituída por uma estrutura projetada pelo engenheiro militar Giovanni Battista Antonelli, natural da península itálica e o mais importante projetista da coroa de Felipe II na América. Antonelli permaneceu por anos em Santos, por volta de 1584, sob as ordens de Valdez, comandando o projeto e a supervisão das obras da fortaleza. Entretanto, também não é essa a configuração definitiva.
Infelizmente, a presença do forte não impediu outros ataques de piratas, tanto que no Natal de 1591, três navios esquadra de Thomas Cavendish atacaram e saquearam a vila. O “Roebuck”, do capitão Cocke, o “Desire” do capitão John Davies e o “Blake Pinesse”, do capitão Strafford vieram à frente, enquanto Cavendish guardava a entrada por São Sebastião, com outros dois navios, o “Leicester”, do capitão Southwell e o “Daintie”, do capitão Barker. Os piratas permaneceram em Santos por cerca de dois meses, sacrificando a população, roubando, depredando e queimando os engenhos dos arredores.
A primeira mudança significativa na construção original de Antonelli se deu a partir de 1714, completamente reestruturada e armada. Novas modificações e adições foram realizadas ao longo de todo o século XVIII, mas nunca gozou de boa manutenção, de tal maneira que no início do século XIX, a fortaleza estava arruinada e seus armamentos deteriorados.
O último tiro da fortaleza foi disparado em 1893 e em 1905, o Ministério da Guerra determinou o seu desarmamento. A desativação definitiva só se deu em 1911. A fortaleza foi primordial para o enfrentamento de corsários franceses, ingleses e holandeses, mas quase sucumbiu à ação do tempo e ao abandono. Foi tombada como Patrimônio Histórico Nacional em 1967, mas nem isso parecia livrá-la da decadência, pois, curiosamente, o seu período de maior deterioração se deu a partir da década de 1970.
O trágico desfecho da fortaleza só não se concretizou porque mesmo sem receber o merecido cuidado, jamais perdeu a sua imponência e chamou a atenção de um grupo de estudiosos, cientes da necessidade de preservação de um dos monumentos militares de maior relevância do Estado de São Paulo. Em 1991, constituiu-se uma comissão de trabalho com o objetivo de restaurar a fortaleza e, em 1993, formalizou-se uma parceria entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Universidade Católica de Santos e a Prefeitura Municipal do Guarujá. Em 2000, aproveitando as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, foi lançado o livro “Fortaleza da Barra Grande: patrimônio histórico recuperado, ricamente ilustrado, narrando a trajetória do resgate da nossa querida fortaleza e que fortemente recomendo a leitura!
De inegável valor histórico e arquitetônico nacional, a Fortaleza da Barra também emprestou o seu simbolismo aos imigrantes italianos que chegavam ao porto de Santos nas últimas décadas do século XIX e início do século XX. Assim como a Lanterna de Gênova era o último ponto que se avistava ao partirem da terra natal – muitas vezes, para sempre – a Fortaleza da Barra simbolizava a chegada, o início de uma nova jornada em um país desconhecido e distante.
Esse simbolismo é de tal maneira marcante que em 2024, por ocasião da geminação entre as cidades de Gênova e Santos e das celebrações dos 150 anos da imigração italiana no Brasil, os dois monumentos foram representados no mural “Um mar de esperança”, na também simbólica rua Tuiuti, próximo ao local dos antigos trapiches, da Inspetoria de Immigração e dos atracadouros por onde desembarcavam os imigrantes.
Ao conectar a Fortaleza da Barra Grande com a chegada dos nossos antepassados ao Brasil – isso sem contar a autoria italiana antigo projeto – buscamos despertar nos ítalo-descendentes um olhar mais afetivo ao monumento, de tal maneira que ao avistá-lo, o sentimento seja de pertencimento e de reverência e que nos impulsione a recontar essa história aos nossos descendentes.
Imagem da capa:
Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande ou Forte da Barra Grande, inclusive o Fortim da Praia do Góis, o Portão Espanhol e toda a área que os envolve. Autor Sergio Furtado – agosto, 2013 – CC-BY-SA-4.0 – Fonte: Wikipedia
Leitura Sugerida:
SALGADO, Ronaldo Fidalgo – Fortaleza da Barra Grande: patrimônio histórico recuperado, 2000.
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



