Gina Lollobrigida na Mostra do Cinema Italiano em Santos (1996)
No primeiro dia de abril de 1996, Santos viveu um momento raro de efervescência cultural. A cidade, que naquele ano comemorava seu 450º aniversário, foi palco da Primeira Mostra do Cinema Internacional Italiano, evento promovido pela Prefeitura de Santos em parceria com a Prefeitura de Roma, o Ministero del Turismo e dello Spettacolo e os estúdios Cinecittà International. Inspirada em mostras já realizadas em Nova York, Berlim, Paris e São Petersburgo, a edição santista trouxe nomes consagrados do cinema italiano e projetou a cidade em um cenário cultural internacional.
Entre os convidados, o destaque absoluto era a presença da atriz Gina Lollobrigida, ícone do cinema italiano e uma das grandes divas do século XX. Ao seu lado, estavam o diretor Ricky Tognazzi, a atriz, diretora e roteirista Simona Izzo, a atriz e diretora Francesca Archibugi, o vice-prefeito de Roma, Walter Tocci, que acompanhou a comitiva em todos os eventos oficiais e Rosana Santacella, representante da Ente Cinema. A chegada da delegação movimentou a imprensa e despertou curiosidade do público santista, que compareceu em peso aos espaços culturais e à praia, transformada em grande sala de exibição ao ar livre.
Almoços, bastidores e laços culturais
No dia 31 de março, véspera da abertura oficial, a Prefeitura de Santos ofereceu um almoço no restaurante Vista ao Mar, reunindo os convidados italianos e autoridades locais. O calor intenso e o cansaço da viagem afetaram Lollobrigida, que tratou o almoço como um evento meramente social, evitando longas conversas com jornalistas. Ricky Tognazzi, em contraste, mostrou-se solícito: posou para fotos ao lado da esposa nos jardins da orla, conversou longamente com a imprensa e comentou sobre a fase do cinema italiano, traçando paralelos com a produção brasileira. Admitiu conhecer pouco do cinema nacional — inclusive não havia assistido a O Quatrilho (1995), então indicado ao Oscar —, mas destacou os desafios comuns aos dois países: a dificuldade de distribuição e divulgação no mercado internacional e a carência de apoio institucional.
Poucos dias depois, Gina Lollobrigida e parte da comitiva italiana foram homenageados com um almoço na sede da Società Italiana di Santos, instituição fundada em 1897 e símbolo da presença italiana na cidade. O encontro marcou o início das comemorações do centenário da entidade, que seria celebrado no ano seguinte. Claudio Capurso, vice-cônsul da Itália em Santos e presidente de honra da Società, destacou o privilégio de receber artistas de renome e de integrar a cidade a um circuito internacional de cinema.
O presidente Mario Porco fez questão de abrir oficialmente a casa aos convidados, enquanto a organização do evento ficou a cargo da diretoria social, presidida por Paulo de Oliveira, com apoio do “mago das flores” Roberto Sant’Anna e do vice-presidente Massimo Pipo. A ocasião uniu diplomacia, cultura e memória imigrante em uma celebração que evidenciou os laços históricos entre Santos e a Itália.
Nos bastidores, porém, o brilho cinematográfico deu lugar a cenas dignas de uma comédia italiana. A filha do então presidente Mario Porco — jovem, bonita, comunicativa e fluente em italiano — foi escalada como cicerone dos convidados durante toda a semana. Foi ela quem revelou, anos depois, que Gina Lollobrigida se mostrou de uma antipatia inesquecível. Reclamava do calor, da comida, do ritmo dos eventos… de tudo. Passava parte dos encontros de cara fechada, pelos cantos, recusando os pratos servidos com esmero pela comunidade local. Segundo a amiga, “foi um fiasco monumental” — um bastidor que contrastava deliciosamente com o glamour oficial estampado nos jornais da época.
Uma noite de gala na Pinacoteca
A abertura da mostra ocorreu na noite de 1º de abril, na Pinacoteca Benedito Calixto, em um ambiente que lembrava as grandes noites de gala de Hollywood. O evento começou com a exibição do clássico do neorrealismo italiano Dov’è la libertà (1954), de Roberto Rossellini, projetado também em um gigantesco telão instalado na praia, com capacidade sonora para 20 mil pessoas. Lollobrigida surgiu elegantemente trajada com um vestido preto bordado e um xale vermelho, atraindo uma multidão de curiosos.
Durante a solenidade, falaram o cônsul adjunto da Itália em São Paulo, Pier Francesco Sacco, o diretor Ricky Tognazzi e o então prefeito de Santos, David Capistrano. Fugindo do protocolo, Gina Lollobrigida pediu a palavra e, com simpatia, agradeceu o convite para ser madrinha da mostra. Logo após o coquetel, viajou para São Paulo, onde participou ao vivo do programa de Hebe Camargo.
Um panorama do cinema italiano dos anos 1990
Ao longo da semana, foram 20 sessões, exibindo 13 filmes inéditos no Brasil, distribuídos entre três salas tradicionais da cidade — Cine Arte Posto 4, Indaiá e Iporanga — além das projeções ao ar livre na praia.
Nas entrevistas, Gina Lollobrigida falou não apenas sobre sua carreira e preferências pessoais, mas também sobre a situação do cinema italiano. Criticou a hegemonia das produções norte-americanas, que, apoiadas por um poderio econômico maciço, sufocavam as cinematografias de outros países. Segundo ela, a qualidade da produção italiana contemporânea não devia em nada aos “anos dourados” do cinema nacional, mas carecia de mecanismos de promoção e financiamento compatíveis.
Simona Izzo reforçou essa análise ao citar seu filme Gente di Famiglia: a obra só foi aceita por uma emissora de TV italiana depois de obter sucesso nos cinemas — situação que, para ela, ilustrava os desafios atuais de distribuição. Já Ricky Tognazzi, filho do ator Ugo Tognazzi, afirmou que o domínio americano se sustentava em estratégias econômicas robustas que viabilizavam todas as etapas de produção e divulgação. Para ele, cabia ao poder público italiano e brasileiro criar condições para que seus respectivos cinemas pudessem competir internacionalmente.
Um marco cultural para Santos
Ao longo de sete dias, a Mostra do Cinema Italiano transformou Santos em um centro de intercâmbio cultural ítalo-brasileiro. Além das exibições, foram realizados workshops e debates no Teatro Municipal Brás Cubas e em outros espaços da cidade. A elite cultural santista compareceu em peso, com destaque para o compositor Gilberto Mendes, declarado cinéfilo, que destacou a importância da mostra para apresentar ao grande público a nova geração de cineastas italianos.
O encerramento ocorreu no dia 7 de abril, com a exibição ao ar livre do filme Le amiche del cuore, de Michele Placido, reunindo espectadores na praia em clima de festival. A mostra não apenas aproximou Santos do circuito cultural internacional, como também evidenciou os laços históricos e linguísticos que unem Itália e Brasil, reforçando a cidade como espaço de encontros culturais memoráveis.
A programação da mostra foi cuidadosamente elaborada para oferecer ao público santista um panorama abrangente do cinema italiano, mesclando clássicos do neorrealismo, comédias populares e produções contemporâneas dos anos 1980 e 1990. Durante uma semana intensa de exibições, os espectadores puderam assistir a filmes premiados, obras de referência e títulos pouco conhecidos no Brasil, em sessões realizadas nas principais salas da cidade e em uma grande tela montada à beira-mar. A seguir, apresentamos os filmes que compuseram essa seleção singular — um verdadeiro retrato da diversidade estética e temática do cinema italiano da época:
Programação – Mostra do Cinema Italiano (Santos, abril de 1996)
Dov’è la libertà…? (Onde está a liberdade?, 1954)
- Diretor: Roberto Rossellini
- Elenco: Totò, Nyla Baroni, Vera Molnar, Leopoldo Trieste
- Sinopse: Após cumprir 22 anos de prisão por homicídio, Salvatore Lojacono é libertado por bom comportamento. Ao retornar à sociedade, encontra um mundo hostil e desumanizado — tão intolerável que prefere voltar à prisão, onde pelo menos entende as regras. Uma crítica mordaz ao pós-guerra italiano, com atuação magistral de Totò.
Una storia semplice (Uma simples história, 1991)
- Diretor: Emidio Greco
- Elenco: Gian Maria Volonté, Ricky Tognazzi, Massimo Ghini
- Sinopse: Baseado em conto de Leonardo Sciascia. Um homem denuncia um crime misterioso na delegacia de uma pequena cidade siciliana — mas a verdade é mais complexa e envolve corrupção e silêncios profundos. Thriller político e moral, de atmosfera densa.
Nemici d’infanzia (Inimigos da Infância, 1995)
- Diretor: Luigi Magni
- Elenco: Renato Carpentieri, Paolo Murano, Vincenzo Peluso
- Sinopse: Ambientado na Roma de 1944, durante a ocupação nazista, acompanha um grupo de adolescentes que enfrenta dilemas éticos e políticos enquanto tenta sobreviver. O olhar infantil sobre uma cidade dividida.
Mery per sempre (Mery para sempre, 1989)
- Diretor: Marco Risi
- Elenco: Michele Placido, Francesco Benigno, Claudio Amendola
- Sinopse: Um professor idealista começa a lecionar em uma prisão juvenil de Palermo. Ali, conhece Mery, uma jovem trans, e um grupo de adolescentes marginalizados. O filme aborda violência, preconceito e esperança, tornando-se um marco do cinema social italiano dos anos 1980.
Ultrà (Os Fanáticos, 1991)
- Diretor: Ricky Tognazzi
- Elenco: Claudio Amendola, Ricky Memphis, Gianmarco Tognazzi
- Sinopse: Ao sair da prisão, Principe tenta retomar seu lugar entre os líderes de uma torcida organizada romana. O filme retrata de forma crua a cultura hooligan na Itália, mostrando seus códigos, violência e desencantos. Venceu o Urso de Prata em Berlim.
Regalo di Natale (Presente de Natal, 1986)
- Diretor: Pupi Avati
- Elenco: Carlo Delle Piane, Diego Abatantuono, Alessandro Haber, Gianni Cavina
- Sinopse: Na véspera de Natal, cinco amigos se reúnem para uma partida de pôquer que pode mudar o destino de todos. Um drama psicológico que expõe rivalidades, mágoas e ambições escondidas sob a aparência de camaradagem.
Casablanca, Casablanca (1985)
- Diretor: Francesco Nuti
- Elenco: Francesco Nuti, Giuliana De Sio
- Sinopse: Um saxofonista embarca em um navio junto com sua amada e tenta conquistá-la vestido como Humphrey Bogart. Uma comédia romântica com tons nostálgicos, inspirada no clássico Casablanca, mas com olhar irônico e contemporâneo.
Segreti segreti (Segredos secretos, 1984)
- Diretor: Giuseppe Bertolucci
- Elenco: Rossana Podestà, Mariangela Melato, Stefania Sandrelli, Alida Valli, Lea Massari
- Sinopse: Cinco mulheres de diferentes gerações e trajetórias se veem envolvidas em uma história de cumplicidade e resistência política na Itália dos anos 1970. Um filme intenso sobre amizade, militância e segredos compartilhados.
L’americano rosso (O Americano Ruivo, 1991)
- Diretor: Alessandro D’Alatri
- Elenco: Beau Bridges, Giancarlo Giannini, Burt Young
- Sinopse: Um americano com raízes italianas chega à Sicília em 1955 para descobrir o passado de sua família. No processo, envolve-se com os habitantes locais e com suas histórias não contadas. Mistura drama histórico e elementos de faroeste mediterrâneo.
Il gioco di Marianna / (O Jogo do Mignon, 1995)*
- Diretor: Paolo Benvenuti
- Elenco: Massimo Ghini, Alessandra Mussolini
- Sinopse: Obra menos conhecida, relacionada ao universo psicológico e erótico, possivelmente exibida em sessões de arte.
Il ladro di bambini (Ladrão de Crianças, 1992)
- Diretor: Gianni Amelio
- Elenco: Enrico Lo Verso, Valentina Scalici, Giuseppe Ieracitano
- Sinopse: Um policial acompanha duas crianças de Milão até um orfanato no sul da Itália. Durante a viagem, forma-se entre eles uma ligação profunda e comovente. Um dos filmes mais premiados do cinema italiano dos anos 1990.
Non ci resta che piangere (Nada a fazer senão chorar, 1984)
- Diretores: Roberto Benigni, Massimo Troisi
- Elenco: Roberto Benigni, Massimo Troisi
- Sinopse: Dois amigos italianos dos anos 1980 inexplicavelmente voltam no tempo para a Itália renascentista e tentam impedir que Cristóvão Colombo descubra a América. Uma comédia absurda e muito popular, misturando anacronismos e sátiras históricas.
Le amiche del cuore (Amigas do Peito, 1992)
- Diretor: Michele Placido
- Elenco: Asia Argento, Carlotta Natoli, Claudia Pandolfi
- Sinopse: Três jovens amigas atravessam juntas as transições emocionais da adolescência para a vida adulta, entre paixões, desilusões e descobertas. Um retrato sensível da juventude italiana dos anos 1990.
A programação estendeu-se além da mostra principal (até 13 de abril), com reprises no Posto 4, repetindo títulos como Il ladro di bambini, Non ci resta che piangere, Le amiche del cuore, L’americano rosso, Ultrà e Dov’è la libertà
“Este texto foi construído a partir de pesquisa própria e de um intenso diálogo com uma IA generativa (ChatGPT – OpenAI), que auxiliou na organização dos dados históricos.”
Fontes consultadas:
Jornal da Orla (1996), edição 01152
A Tribuna (1996), edição 00363
A Tribuna (1996), edição 00003
A Tribuna (1996), edição 00004
A Tribuna (1996), edição 00007
A Tribuna (1996), edição 00008
A Tribuna (1996) edição 00009
A Tribuna (1996) edição 000011
A Tribuna (1996) edição 000012
A Tribuna (1996), edição 00013
A Tribuna (1996) edição 00018
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



