O primeiro embaixador italiano no Brasil visita Santos em 1920
A localização estratégica do porto em Santos, como porta de entrada para a capital e o interior do estado de São Paulo, além de toda a sua relevância no cenário político e econômico, fez com que a região tivesse sempre uma representatividade diferenciada perante os ilustres visitantes estrangeiros.
A forte presença italiana, ainda que em menor número em relação aos portugueses e espanhóis, gozava de um certo destaque nas relações internacionais com a Itália, graças ao vice-consulado aqui estabelecido desde a segunda metade do século XIX, à Società Italiana di Beneficenza e aos seus membros e sócios com vínculos consistentes com o país de origem.
Quanto nomeado primeiro embaixador italiano no Brasil em 1919, o Conde Alessandro De Bosdari apresentou as suas credenciais ao nosso presidente Epitácio Pessoa.
A carreira do grande embaixador, natural de Bologna, se desenhou brilhantemente desde a sua graduação em Direito na sua cidade natal, em 1888. Em seguida, ingressou na carreira diplomática e ocupou importantes cargos tanto na Itália como no exterior. Foi adido em Berna, Atenas, Londres e Madri. Em Haia, atuou como encarregado de negócios, representando o seu país. Foi nomeado cônsul em Budapeste (1911) e ministro plenipotenciário na Bulgária. Teve um papel relevante nas negociações após as guerras ítalo-turcas (1912-1913) e na conflagração europeia, com grande êxito em todas as comissões das quais participou. Em 1918, foi nomeado representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros e tratou diretamente da permuta de prisioneiros e feridos nos confrontos da Grande Guerra.
Durante os quase dois anos que foi embaixador italiano no Brasil, De Bosdari se estabeleceu no Rio de Janeiro, mas procurou conhecer a fundo o país e realizou diversas expedições pelas principais capitais, estreitando os laços entre as duas nações.
Em 1920, o embaixador fez questão de visitar especificamente Santos, por reconhecer a importância da cidade no cenário da mobilidade dos italianos emigrados. Isso aconteceu por ocasião da sua visita à São Paulo e deslocou-se à Santos de trem.
Ao chegar à estação do Valongo, foi recepcionado pelo prefeito Coronel Joaquim Montenegro e demais por autoridades e políticos. Claro que a colônia italiana santista também se fez representar pelo vice-cônsul da Itália em Santos, o Comendador Augusto Marinangeli, e por destacados empreendedores, empresários e comerciantes aqui estabelecidos. A Società Italiana di Beneficenza di Santos foi representada pelas senhoras Virginia Casalta, Elvira Matty e Thereza Ratti.
Ainda na estação, a banda do Corpo de Bombeiros executou a marcha real italiana e o hino nacional brasileiro. Um piquete da cavalaria e um pelotão de infantaria prestaram as honras ao ilustre visitante. O embaixador seguiu em visita ao Paço Municipal e depois percorreu o trajeto até o Hotel Parque Balneário em carro oficial da presidência da Câmara.
À noite, o embaixador foi homenageado em um requintado banquete no salão nobre do Parque Balneário com a presença de importantes personalidades locais, nacionais e estrangeiras.
Ao centro da mesa de honra estava o homenageado. A lista de convidados de honra era gigantesca. Para citar alguns dos mais expoentes, à direita do embaixador, o Comendador Alfaya Rodrigues, vice-presidente da Câmara; Ugo Tedeschi, cônsul geral da Itália em São Paulo; Cavaleiro Sylvio Camerani, vice-cônsul italiano em São Paulo; representantes consulares do Uruguai, da Inglaterra, da Suécia, da Holanda, da Dinamarca e de Portugal; Cavaleiro Vitto Celi, da Banca Italiana di Sconto; Charles Murray, diretor da Associação Comercial; Sr. Wallace Cochrane Simonsen, da Câmara Sindical dos Corretores de Café e o Sr. Carmine Nery, da Società Italiana di Beneficenza. À sua esquerda, o Coronel Joaquim Montenegro, prefeito de Santos; Amilcar Marchesini, do Ministério da Relações Exteriores; Conde Buzzi, da embaixada italiana; Dr. Gabriel Junqueira, presidente da Bolsa do Café, Sr. M. Nascimento Junior, diretor-proprietário do jornal A Tribuna; Dr. Roberto Simonsen, superintendente da Companhia Construtora de Santos, Cavaleiro Umberto Lobroso, do Banco Ítalo-Belga, Augusto Marinangeli, vice-consul da Itália em Santos, representantes consulares da Bélgica, da Franca, do Paraguai e da Noruega e o Dr. Victor de Lamare, pela Companhia Docas de Santos.
O menu foi elaborado e executado com primor pela empresa da família italiana Fracarolli, proprietária do Parque Balneário, incluindo, por exemplo, “zuppa, filetto di roballo, cotoletto d’agnello, tarcchino, aspargi e insalata”. Como sobremesa, torta millefoglie e frutas. Destaque para algumas das bebidas servidas: vinho italiano Valpolicella e champagne francês Moët Chandon.
Ao final, durante o brinde com champagne, o Coronel Montenegro proferiu seu discurso ao ilustre visitante, onde exaltava a participação dos italianos emigrados na construção do Brasil, em particular, do estado de São Paulo e em Santos. Em resposta, o embaixador De Bosdari agradeceu às saudações recebidas e reafirmou o grande interesse da Itália pelo Brasil. Após o banquete, o embaixador fez questão de se estender em diálogo com as autoridades presentes, antes de retornar à capital.
Atualmente, a presença italiana em Santos foi um tanto diluída e, muitas vezes, parece mesmo que se tratava “apenas” da porta de entrada para milhares de italianos em trânsito para a capital e o interior. Cabe a nós, ítalo descendentes, mantermos viva a memória da colônia que escolheu a cidade para se estabelecer desde os primórdios da grande imigração e que aqui se desenvolveu com tamanho destaque nas primeiras décadas do século XX.
Fontes consultadas:
O Paiz (Rio de Janeiro), números 16.276 e 16.267, de 13 e 14/05/1929
A Tribuna, edição 42, 1920
Enviado por:
Giany Gonze Tellini



